A história se repete
- Isabela Pelluso
- 29 de nov. de 2024
- 4 min de leitura
“Ainda estou aqui”, filme dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello, estreou nos cinemas em 7 de novembro de 2024. Não pensei duas vezes, ansioso para assistir ao longa-metragem corri para uma sala de cinema assim que pude. Sala lotada, muitos adultos e jovens, dificilmente seria um filme para levar as crianças. Mesmo que a maioria tenha prestado atenção integral à tela, ainda me incomoda as luzes de celulares ligados daquelas pessoas que não conseguem respeitar a regra do cinema. A sala de cinema para mim é sagrada, sem celular, sem conversa, apenas duas horas desfrutando do telão e, possivelmente, de uma pipoca com refrigerante. Mas isso é assunto para outra crônica, não posso me estender. Duas horas e dezessete minutos depois de ter começado a película me encontro sentado na poltrona sem reação. O misto de sentimentos que me percorrem é demasiado, tão grande que me impedem de pensar direito. “O que achou do filme?”, se me perguntassem isso naquele momento acho que só encararia a pessoa e não daria nenhuma resposta. O silêncio seria minha resposta. Tão atônito, não pela surpresa com as belíssimas atuações ou pelo visual deslumbrante dos cenários, nem pela história, já li e aprendi sobre os horrores da ditadura antes, mas atônita pela sensação de desconforto e impotência diante de tudo o que o filme retrata e, além disso, o que ele deixa subentendido.
Depois de um tempo me pego pensando: “o que eu faria?”. Sim…o que eu faria em uma ditadura? Penso em mim como jornalista, meu dever para a sociedade. O que eu faria? Me imagino como Vladimir Herzog, morto pelos militares. Me imagino Zuzu Angel, possivelmente morta pelos militares. Me imagino Rubens Paiva, torturado e morto pelos militares. Eu morreria, morreria com prazer pela defesa do que é certo, pelo fim da injustiça e da opressão, eu daria minha vida se isso ajudasse a impedir os desaparecimentos, as torturas e as mortes sem explicação. Se isso ajudasse a dar uma resposta e um funeral digno para as famílias que até hoje não sabem onde estão enterrados seus pais, irmãos, maridos, mães, esposas, irmãs, avós e avôs.
Pouco tempo depois me deparo com o imponderável. Plano para matar o presidente eleito, o vice-presidente eleito e um ministro do STF. Como chegamos até aqui? Estamos mesmo fadados a repetir o passado? Crio uma obsessão por essa notícia, leio matérias, vejo reportagens, ouço podcasts, penso em me submeter a ler as 884 páginas do relatório final da Polícia Federal, quero me inteirar de tudo, quero saber como ficamos novamente por um fio de uma ditadura. “A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Foram detalhes, um táxi que não conseguiram pegar, uma sessão que acabou antes do horário, a falta de apoio de uns mais covardes, ou menos covardes dependendo do ponto de vista. O que explica que certas coisas aconteçam e outras não? Certamente as grandes estruturas que regem o mundo e seu contexto histórico têm explicações plausíveis para isso, mas o que explica os pequenos detalhes que impediram que o nosso Estado Democrático de Direito fosse rompido? O mundo em que eu nasci e cresci esteve muito perto de virar de cabeça para baixo e eu não me conformo com a facilidade com que as coisas poderiam ter acontecido.
De novo me pego pensando: “O que eu faria?”. Agora não me imagino mais como os mortos pela ditadura, me imagino como os que ficaram, os que ainda estão aqui. Estaria disposto mesmo a morrer para combater esses ditadores? Como jornalista daria minha vida para defender o que é o certo? Quero muito dizer que sim, mas não é fácil abrir mão do que você idealizou. Minha mãe, meu pai, meu futuro companheiro, meus futuros filhos…o que eu faria com eles? É mais certo lutar pelo que eu acredito ou lutar para poder ter os que eu amo comigo? Quando penso na facilidade com que poderíamos estar nessa situação agora, me sobe uma indignação. Eles ousam mesmo roubar nossa liberdade, nossas vozes, nosso território, nossa vida, mas o que é pior pra mim é pensar na facilidade com que roubam nossos sonhos. Penso se é covardia ter essas dúvidas, mas é inevitável ter medo diante disso tudo. Não sei se mais alguém tem esses mesmos medos ou se estou exagerando, mas é inegavelmente assustador pensar em como chegamos perto de ver tudo rompido novamente.
É curioso que o filme e as notícias tenham saído tão perto, mas é daquelas coincidências que formam a vida e dão mais sentido para as coisas, como se tivesse sido feito para refletirmos melhor sobre tudo o que poderia significar a volta dos militares ao poder. As torturas, a censura, os desaparecimentos, as mortes, os estupros. É disso que chegamos perto novamente, e eu vou lutar para que não aconteça novamente, mesmo que custe meu futuro e que daqui a muitos anos lembrem de mim como lembramos hoje de Herzog, Zuzu Angel e Rubens Paiva.
Borboleta


Esse filme é incrivel, um verdadeiro alarme a população
lindo texto, borbolet