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Rio de Janeiro
A república dos esquecidos
Nas vielas estreitas onde o sol demora a nascer, o som que desperta o dia não é o canto dos pássaros, mas o eco dos helicópteros. O Estado chegou. Dizem que é uma “operação”. Mas, pra quem mora aqui, parece mais uma guerra que nunca termina. Dona Célia segura a foto do filho, morto aos 17. “Falavam que o Estado vinha pra proteger. Chegou atirando.” Ela mora no mesmo beco onde, quinze anos atrás, a primeira ocupação do Alemão prometeu pacificar o território. Vieram tanques, j
Manuella
11 de nov. de 20252 min de leitura
O Rio de Janeiro continua lindo pra quem?
Era por volta das sete quando resolvi sair. Desci a escadaria devagar. O ar estava pesado, como se o medo tivesse pernoitado na porta das casas. Os passos ecoavam num chão que parecia carregar tudo o que restou de ontem. No poste da esquina, um chinelo virado. Mais adiante, uma mãe ajoelhada. Ela segurava uma camisa e o mundo inteiro dentro dela. Os corpos. Ainda estavam ali, alinhados como se a morte tivesse virado rotina. No chão, marcas. No rosto, histórias que não viraram
Manuella
10 de nov. de 20251 min de leitura
Construção
Acordei atrasado. Minha mãe fazia algum resto de comida para o café da manhã dos meus irmãos - era raro ter algo para isso -, e já gritava descontando nos filhos toda sua insatisfação com a vida que levava. Sabia que significava que eu precisaria arrumar comida fora, afinal os mais novos não podem sair para comer e eu já tinha 8 anos, já era crescido o suficiente. Coloquei o uniforme, como forma de identificação, não para o porteiro da escola, mas para os policiais e os vig
Manuella
10 de nov. de 20253 min de leitura
Relatos sofridos
Meu nome é Maria do Socorro. Tenho 45 anos e sempre morei no Complexo da Penha. Com a minha vida humilde, ganho o dia a dia como empregada doméstica para uma família que vive na Tijuca. Graças à Deus eles assinaram a minha carteira e já tem alguns anos que trabalho lá. Tenho quatro filhos e faço o possível para eles seguirem um bom caminho, irem para a escola e buscarem um futuro melhor. Não tive muitas oportunidades com os estudos, fiz até metade do ginásio, pois precisava a
Manuella
10 de nov. de 20252 min de leitura
Rio 2025
É estranha a sensação de ser o mais protetor da família — e, em casos como este, não conseguir fazer nada. Ao ver o noticiário, não acredito na dimensão de tudo. O que faço primeiro? Mando uma mensagem para minha mãe. Ela deve estar desesperada, sozinha em casa com meu irmão. Meu chefe está ao meu lado e diz que posso ir para casa mais cedo. Ele entende a situação e me libera. Pego minhas coisas depressa, sem pensar muito. Só quero ver minha família. Saindo do prédio, percebo
Manuella
10 de nov. de 20251 min de leitura
O Rio precisa de mais do que ordem.
A operação contenção nos complexos Alemão e Penha ocorrida na última semana no Rio de Janeiro, resultou em 113 prisões e deixou 121 mortos, sendo 117 suspeitos. Na madrugada de terça-feira, 28 de outubro de 2025, cerca de 2500 policiais civis e militares chegaram aos complexos. Quase todos os bandidos estavam trajados com roupas camufladas ou pretas. A medida que o confronto entre policiais e bandidos se intensificava, bandidos fugiram pela Serra da Misericórdia, que liga
Manuella
10 de nov. de 20251 min de leitura
Por dentro das paredes
Aqui, em meu único local de fala plena, eu posso me permitir expressar sobre meus pensamentos, anseios e desejos que, ainda, não me arrancaram. Hoje, terça feira, presenciei mais uma vez perto da minha casa, guerra. A guerra que nunca tem fim. A guerra que destrói não somente vidas, mas esperanças. A guerra que mata, mata e mata. Não acordo com o som de pássaros, como sei que muitas pessoas carregam essa sorte pelo mundo. Seria eu alguém com tão pouca sorte assim? Ou é o sist
Manuella
10 de nov. de 20251 min de leitura
"Alívio" de mãe
As sirenes já haviam se calado, e o cheiro de pólvora se misturava ao café que vinha das cozinhas da Penha. No beco principal, as marcas de sangue haviam sido lavadas, mas o vermelho insistia em aparecer entre as frestas do chão rachado. Dona Célia estava sentada no batente da porta, o olhar perdido, mãos trêmulas segurando um terço que já nem brilhava mais. As vizinhas cochichavam ao longe, respeitosas, talvez por piedade, talvez por medo. Ela, no entanto, não chorava.
Manuella
10 de nov. de 20251 min de leitura
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