A república dos esquecidos
- Manuella
- 11 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Nas vielas estreitas onde o sol demora a nascer, o som que desperta o dia não é o canto dos pássaros, mas o eco dos helicópteros. O Estado chegou. Dizem que é uma “operação”. Mas, pra quem mora aqui, parece mais uma guerra que nunca termina.
Dona Célia segura a foto do filho, morto aos 17. “Falavam que o Estado vinha pra proteger. Chegou atirando.” Ela mora no mesmo beco onde, quinze anos atrás, a primeira ocupação do Alemão prometeu pacificar o território. Vieram tanques, jornalistas, promessas. Foram-se as câmeras — e ficou o medo. Hoje, em 2025, a história se repete. Mudam as fardas, mas não mudam as feridas.
Nas escolas, as carteiras vazias contam mais do que as estatísticas. Joãozinho, 13 anos, correu pra se esconder atrás do muro quando ouviu o helicóptero sobrevoar. “Não sei quem manda mais: o CV ou o governo”, ele diz, com a inocência de quem já entendeu demais. O comando dá ordem, o Estado dá tiro — e no meio, o povo paga a conta.
A reportagem tenta encontrar o artigo da Constituição que prometia segurança e dignidade. Abre-se no Artigo 6º: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia e a segurança. ”Mas aqui, entre o morro da Alvorada e a Grota, a Constituição é só uma lembrança. Um papel velho, guardado na gaveta da escola municipal, onde as crianças aprendem que o verbo “esperar” já foi esperança.
Enquanto isso, nas assembleias e palácios, os discursos são impecáveis. Falam em “retomada do território”, em “ordem e progresso”. Mas quem retoma o território das mães, dos filhos, dos sonhos perdidos? O Estado que aparece de farda e desaparece de política?
Na viela, alguém pichou no muro: “Aqui quem manda é o medo.” E ninguém apaga — por medo ou por costume.
No final do dia, o helicóptero vai embora, as câmeras desligam, o Estado recolhe-se ao asfalto. E o Alemão, de novo, dorme em silêncio. Mas nas janelas, entre velas e orações, ainda há quem acredite que o Brasil de 1988 — o país prometido pela Constituição — possa um dia subir o morro sem fuzil, sem medo e sem morte.
Porque a verdadeira ocupação que o povo espera é a do direito de viver.
Bruxa Má

Achei a crônica ótima! Fez uma crítica sensível e impactante!