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Relatos sofridos

  • Manuella
  • 10 de nov. de 2025
  • 2 min de leitura

Meu nome é Maria do Socorro. Tenho 45 anos e sempre morei no Complexo da Penha. Com a minha vida humilde, ganho o dia a dia como empregada doméstica para uma família que vive na Tijuca. Graças à Deus eles assinaram a minha carteira e já tem alguns anos que trabalho lá. Tenho quatro filhos e faço o possível para eles seguirem um bom caminho, irem para a escola e buscarem um futuro melhor. Não tive muitas oportunidades com os estudos, fiz até metade do ginásio, pois precisava ajudar minha mãe e já começar a trabalhar. Um dos meus filhos, o Salvador, começou a se envolver com o tráfico aqui da comunidade. Sempre tive muito medo de acontecer algo com ele e aconteceu. Nunca concordei com a vida que estava levando, mas filho é filho, e independente das suas escolhas, o amor de mãe continua o mesmo. Naquele dia que invadiram a comunidade, meu peito ficou apertado, meu menino não estava em casa e meu sexto sentido de mãe já me preparava para o pior. Quando colocaram os corpos à mostra na praça, tive que ir  conferir se meu menino estava lá. Reconheci ele logo em que vi, cheio de marcas de bala pelo corpo. Os irmãos não paravam de chorar e não vão parar nunca mais, assim como todas as outras famílias. Hoje grito o meu nome por ajuda pelos meus filhos, minha comunidade, minha história e por esse Rio de Janeiro Zona Norte que está perdido.  

Me chamo Antônio, tenho 56 anos, cresci na Penha, mas quando me casei, vim morar na Tijuca, pois minha esposa sempre residiu aqui. Na semana em que aconteceu o terror no Rio de Janeiro Zona Norte, a senhora que trabalha aqui em casa me avisou, bem cedo, sobre as condições em que estava, muito preocupada com os filhos, especialmente o mais velho, que acabara se envolvendo com o tráfico. Obviamente  dispensei ela do serviço naquele dia e no outro também, e me solidarizei com ela, pelo fato de já ter morado perto da região e por saber bem como as coisas são resolvidas por lá. No dia seguinte, de tarde, ela me ligou chorando e dizendo o que tinha acontecido, que não concordava com o rumo que o menino estava levando, mas mesmo assim amava muito ele e não queria perdê-lo, amor de mãe ninguém explica. No fim da semana, eu perdi a minha filha, o amor da minha vida. Amor de pai presente não se explica. Também para a violência desse Rio de Janeiro que chamam de cidade maravilhosa. Com apenas 19 anos, Helena foi atingida por uma bala perdida na cabeça. Estava voltando para casa andando, já que o trabalho que tinha arrumado era perto, e acordou alegre, como a maioria dos dias, e com a certeza que iria voltar para casa, como todos acham que vão. Mas de repente todos os seus sonhos de menina jamais poderiam ser realizados, tudo tinha acabado de uma hora para outra. Meu amor e o amor de mãe por Helena são indescritíveis. Agora, entramos juntos no quarto dela, choramos juntos e ficamos abraçados em uma almofada rosa de coração que era a sua favorita, - eu que dei de presente no seu aniversário de oito anos. 



Magnólia Morsch

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2 comentários


Cece
Cece
11 de nov. de 2025

Acho que poderia ter organizado melhor os pontos de vista, mas de resto a história ficou ótima! Achei impactante!

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Arabella
Arabella
10 de nov. de 2025

A proposta é boa mas acho que ficou um pouco confuso, pela forma de escrita.

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