O Rio de Janeiro continua lindo pra quem?
- Manuella
- 10 de nov. de 2025
- 1 min de leitura
Era por volta das sete quando resolvi sair.
Desci a escadaria devagar.
O ar estava pesado, como se o medo tivesse pernoitado na porta das casas.
Os passos ecoavam num chão que parecia carregar tudo o que restou de ontem.
No poste da esquina, um chinelo virado.
Mais adiante, uma mãe ajoelhada.
Ela segurava uma camisa
e o mundo inteiro dentro dela.
Os corpos.
Ainda estavam ali, alinhados
como se a morte tivesse virado rotina.
No chão, marcas.
No rosto, histórias que não viraram manchete.
Havia marcas de tortura.
Pensei na Constituição,
no artigo que diz que não existe pena de morte no Brasil.
E concluí: não existe no papel,
mas aqui, ela tem endereço.
O Estado chegou como sempre chega:
de farda, armado, cego.
Diz que traz segurança,
mas quem mora aqui só conhece o som do recado.
Lembrei do noticiário: “operação bem-sucedida”.
Sucesso pra quem?
Pra nós a palavra é: chacina.
Pra nós, ficou o luto.
Pra eles, as estatísticas.
Entrei na padaria do seu Antônio.
O café esfriava no balcão.
Ninguém falava: respirava-se indignação.
As frases morriam na garganta, como se o silêncio fosse ordem.
Lá de cima, os helicópteros ainda rondavam.
Não era vigilância,
era aviso.
Voltei pra casa com o corpo cansado e o coração desfeito.
O Rio de Janeiro continua lindo pra quem?
Enquanto a cidade dorme, a favela sangra
e quem lucra com a morte segue vivo.
Até quando vão chamar de ordem
o que a gente conhece como luto?
Aurora Lispector

Como grande apreciador da música utilizada no título, refleti bastante acerca da verdade no seu tom... continua lindo aos olhos de poucos e, num mundo com gente mais consciente, não deveria continuar lindo aos olhos de ninguém
Incrível, gostei do formato parece que deixou seu texto, que ja é impactante, mais ainda. Ficou muito bem escrito e acerta onde doí da forma que um texto com essa temática tem que fazer.
Achei muito forte! Parabéns!
Não gosto muito desse formato de poema mas o seu ficou muito bom.