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Construção

  • Manuella
  • 10 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Acordei atrasado. Minha mãe fazia algum resto de comida para o café da manhã dos meus irmãos - era raro ter algo para isso -, e já gritava descontando nos filhos toda sua insatisfação com a vida que levava. Sabia que significava que eu precisaria arrumar comida fora, afinal os mais novos não podem sair para comer e eu já tinha 8 anos, já era crescido o suficiente. 

Coloquei o uniforme, como forma de identificação, não para o porteiro da escola, mas para os policiais e os vigias da comunidade, sempre muito bem armados, devem estar protegendo algo muito valioso. Saí de casa, silêncio na viela. A casa da vizinha, irmã da minha mãe, parecia vazia, bem diferente da noite anterior, em que seus gritos e os tapas de seu marido formavam uma sinfonia que dificultaram meu sono e me fizeram acordar tarde. Ela deve ter o irritado de novo, assim como fez comigo me fazendo chegar atrasado na escola hoje. 

Não posso correr, essa foi a primeira regra que aprendi quando passei a ficar metade do meu dia na rua. Quando meu irmão foi baleado enquanto corria para tentar pegar o ônibus para ir para a escola, seu casaco preto cobria o uniforme, eles alegaram que era um assaltante, e bandido bom é sempre bandido morto. Talvez ele estivesse mesmo no lugar errado na hora errada, mas quando todo lugar que não seja a cadeia ou a manchete de assassinato no jornal parece errado para nós, para onde vamos?

Na escola a professora falava de alguma operação matemática, ou alguma função de algum órgão do corpo humano, mas não conseguia ouvi-la, minha barriga roncava e gritava “fome” mais alto que ela gritava “educação”. Almocei e fui embora. Tinha que vender as balas no sinal perto da comunidade, sempre de uniforme, assim os ricos donos do mundo e de seus carrões pelo menos abaixariam os vidros. 

Quanto o caos começou, ouvi os tiros, até aí tudo normal na Penha. Só percebi quando os carros não passavam mais, andava e via ruas bloqueadas, policiais tão armados que parecia que iam enfrentar um grande monstro vindo do espaço. Ninguém mais se importou se eu corria. Na tentativa de achar o caminho de casa me perguntava que monstro era esse que movimentava em um único dia todos os policiais que já vi em 8 anos. Entrei na comunidade, já parecia um campo minado, os corpos já estavam no chão, mais do que eu vi em todas as reportagens de noticiários, uma vez me disseram que a carne mais barata era a carne negra, acho que estão certos, porque todos os corpos tinham uma cor em comum. 

Em casa, meus irmãos choravam, minha mãe não tinha chegado da casa da patroa, que com certeza não veria motivo para dar folga já que na casa dela em Copacabana as crianças ainda iam para a natação e as pessoas ainda passeavam sem pressa nas ruas. Até o fim da tarde, o choro das crianças me distraiu da guerra porta a fora. Minha mãe chegou em casa chorando e nos abraçou, por algum motivo chorei com ela, sua presença me deixou mais saciado que qualquer pão com presunto. Ela agradeceu por estarmos vivos. Nos amou naquela vez como se fosse a última. Teve comida para todos naquela noite. Não teve gritos, nem da minha mãe e nem da irmã dela ao lado. No dia seguinte, acordei no horário e fui para escola. Não ousei a quebrar o silêncio da comunidade. Desviei das poças de sangue e dos restos de órgãos vitais que não sabia identificar -devia ter prestado mais atenção na aula de ciências- dos meus vizinhos, já tomados por moscas. Aí entendi: a morte de vários serão para justificar a vida de alguns. A guerra estava longe de acabar.



Spotlessmind

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1 comentário


Cece
Cece
11 de nov. de 2025

Relatou com muita sensibilidade o ocorrido! Parabéns!

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