Por dentro das paredes
- Manuella
- 10 de nov. de 2025
- 1 min de leitura
Aqui, em meu único local de fala plena, eu posso me permitir expressar sobre meus
pensamentos, anseios e desejos que, ainda, não me arrancaram. Hoje, terça feira,
presenciei mais uma vez perto da minha casa, guerra. A guerra que nunca tem fim. A
guerra que destrói não somente vidas, mas esperanças. A guerra que mata, mata e mata.
Não acordo com o som de pássaros, como sei que muitas pessoas carregam essa sorte
pelo mundo. Seria eu alguém com tão pouca sorte assim? Ou é o sistema que,
incansavelmente, é falho? Os sons de tiros, bombas e gritos transpassaram as paredes e
chegaram alto demais em meus ouvidos, já cansados. Olho para a minha filha e ao invés
de brincar com ela no chão do quarto, criando imaginários, cenários e reinos
encantados, eu me deitei abraçada com ela para nos proteger da bala. Bala essa que não
é doce. É A.M.A.R.G.A. Não sei mais distinguir as diversas cores do céu, pelo que me
contam, algumas pessoas enxergam laranja no fim da tarde, outras um azul belíssimo,
mas eu, naquele dia, só enxerguei drones. Drones. Drones. A dor da perda das mães lá
fora também é minha. A dor dos inocentes dessa guerra também é minha. A dor é
minha. A favela é minha e eu só quero fazer parte da sociedade. Nós só queremos que
parem de nos tratar como inimigos. Nós somos humanos. Humanos. E se essa palavra
para o sistema não representa absolutamente nada, falhamos como sociedade. E não
cansam de falhar cada vez mais como humanos.
Antonella Costa

Adorei a escrita! A história ficou extremamente impactante! Parabéns!