"Alívio" de mãe
- Manuella
- 10 de nov. de 2025
- 1 min de leitura
As sirenes já haviam se calado, e o cheiro de pólvora se misturava ao café que vinha das cozinhas da Penha. No beco principal, as marcas de sangue haviam sido lavadas, mas o vermelho insistia em aparecer entre as frestas do chão rachado.
Dona Célia estava sentada no batente da porta, o olhar perdido, mãos trêmulas segurando um terço que já nem brilhava mais. As vizinhas cochichavam ao longe, respeitosas, talvez por piedade, talvez por medo. Ela, no entanto, não chorava.
“Deus levou meu menino, mas foi melhor assim”, murmurou. Ninguém respondeu. O silêncio parecia mais seguro que qualquer palavra.
Seu filho, André, começará ajudando os homens do tráfico a vigiar os becos, depois pegou gosto pelo poder — ou talvez pelo medo que causava. As histórias sobre o que ele fazia corriam soltas, e dona Célia sabia. Sabia e calava, como tantas mães que tentam dormir abafando o barulho dos tiros com a fé.
Mas havia algo de assustador naquele alívio. Algo que feria mais fundo que a morte. Porque, no fundo, o que significa uma mãe agradecer pela partida do próprio filho? Que tipo de mundo faz do luto um alívio e da dor uma forma de paz? Talvez, na Penha — e em tantos outros lugares —, o coração das mães já tenha aprendido a sentir o impossível: a gratidão pelo fim da dor, mesmo que a dor tenha rosto de filho.
Cece

Excelente texto e o final ficou ótimo
Gostei porque mostra a realidade e faz a gente pensar no tipo de vida que empurra uma mãe a sentir isso.
Excelente escrita. Fechou com chave de ouro.