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Caipirinha de Vinho

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 4 de out. de 2024
  • 2 min de leitura

Eu olho a cartela de drink mesmo já sabendo o que sempre peço, caipirinha de vinho. Vinho de preferência suave, cachaça, açúcar, limão, tudo bem batido e servido com uma ou duas rodelas de limão bem fininhas. Eu continuo olhando a cartela, e enquanto meu dedos tocam o papel laminado meu corpo se arrepia, da última vez que estive aqui as coisas não terminaram bem.


Talvez fosse a bebida, quatro caipirinhas de vinho conseguem mexer com a cabeça de uma mulher, ou talvez fosse o puro ato de eu ter sido irresponsável. Às vezes, me esqueço como Belo Horizonte não é seguro, passear pela lagoa da Pampulha depois das 18:00 é um grande risco, agora depois das 23:00, eu estava pedindo.


Minha bolsa no chão, eu lembro de tentar me segurar nela como se fosse os últimos pedaços da minha realidade, meu rímel da Maybelline que era prova d'água ou ao menos deveria ser borrado em minha face, eu implorando, li em algum lugar que falar seu nome e fatos de você ajuda, então eu tentei, eu juro que tentei mesmo, mas não conseguia falar nada que fosse não.


Por vezes o bartender me olha esperando o que vou ou não pedir, não é como se eu não tivesse pedido antes um milhão de vezes o mesmo drink no mesmo bar. Meu corpo está em alerta, porque o ar está frio e ele se lembra de como o chão estava quando eu ajoelhei nele chorando. Eu ainda odeio azul e branco como o vestido da Farm da garota ao meu lado, azul e branco nos tons da capelinha da Lagoa, que eu fiquei olhando horas e horas enquanto esperava a polícia.


Foram tantas perguntas, tantas interrogações e eu só conseguia pensar na minha bolsa. Ela era uma cópia tão fiel e linda da The Tote Bag do Marc Jacobs, sua alça tinha ficado estraçalhada e se um dia ela foi branca não parecia mais.


E eu nunca mais vou ver minha bolsa, meu rímel Maybelline que não é aprova d'água, apesar de promoverem como contrário ou qualquer outro pertence. Quando fecho os olhos ainda consigo sentir o gosto amargo do vinho na minha boca enquanto eu tremia e a arma estava no meu peito mandando eu entregar a bolsa.



E tudo bem que eu não consigo passar pela lagoa mais e uma cruz faz com que eu queira chorar, que para eu pisar aqui hoje minhas amigas tiveram que me dar um calmante e isso acontece. Eu peço uma caipirinha de morango no caixa e pago em dinheiro.


Mia Mikhailova

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1 comentário


Januária Couto
Januária Couto
09 de out. de 2024

Intenso!

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