Cobrança vem de berço
- Isabela Pelluso
- 29 de out. de 2024
- 2 min de leitura
A gente costuma ouvir que educação vem de berço, vem da família, da criação, dos bons modos e costumes que aprendemos em casa. Que aprendemos desde o berço. O que não costumamos dizer é como muitas coisas também vem do berço: a pressão, as expectativas, os traumas, a ansiedade e também o medo.
Senta direito. Não come demais. Anda igual homem. Se dê ao respeito. Já decidiu o que vai ser quando crescer? Tem que tirar notas boas. Encontre o amor antes de envelhecer. Já passou da idade de engravidar. Ainda não saiu de casa? O seu futuro só depende de você. Faz silêncio. Não pergunta demais. Obedece sem questionar. Veste aquela roupa. Não chora.
A gente cresce e no automático não pensamos o quanto perdemos tentando ser aquilo que esperam de nós. Quanto da nossa liberdade abrimos mão para fazer caber onde fazem acreditar que devemos nos inserir? Mas já perguntou o que seria se quando ao nascer não tivessem derrubado tantas expectativas nas suas costas? E se eu decidir que o que esperam não é o que eu quero para mim? Ainda mereço amor? Acolhimento? Respeito? Proteção?
Não tenho a resposta para grande parte desses questionamentos, mas ainda assim eu assumi comigo um compromisso, de a cada dia dar mais um passo pra encontrar meu eu perdido. Escondido pelas neblinas, preso entre muros construídos por zunidos de discursos coercitivos. Quebrando tijolo por tijolo, a cada dia eu proponho me despir da armadura forjada pelo grito que por anos me submeteu por imposições e me moldou pelo medo. Dispô-me da pressão de ser quem o mundo deseja, negando a minha autonomia de ser quem eu decido.
Decidi por mim, que é tempo de reencontro, daquele eu que perdi em meio às pressões que me construíram, as expectativas que me consumiram e as ansiedades que me paralisaram. Hoje decido que não mais, e assim, desconstruo peça por peça do berço que muitas vezes serviram mais como prisão do que enquanto rede de proteção.
Ametista


Me identifiquei muito com oq vc falou.
Seu texto me trouxe uma reflexão que é muito verdadeira