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Comendo por dois

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 4 de out. de 2024
  • 2 min de leitura

Gravidez. Eu sei que essa palavra causa arrepios somente de ler e pensar, mas agora imagine o que uma adolescente de 18 anos sentiu com sintomas de gravidez (e na sua primeira vez). Loucura, né? No entanto, isso ocorreu com uma garota que sentou ao meu lado no ônibus de Minas Gerais para o Rio de Janeiro em pleno Natal.


Consegui a passagem mais barata para o Rio de Janeiro, porém o único horário disponível era de madrugada. Claramente, eu estava com sono, mas não conseguia pregar os olhos devido à claridade do celular da garota, que parecia iluminar o ônibus todo. Quando fui pedir educadamente para que abaixasse o brilho e agisse como uma pessoa normal, eu pude ler as mensagens: “Acho que estou grávida, minha menstruação está atrasada! Não vou contar aos meus pais” e as lágrimas caíram de seu rosto. O desespero dela era tanto que nem percebeu o meu olhar descaradamente para o celular.


Se os pais dela realmente se importassem de verdade, saberiam que não era hora para uma adolescente voltar sozinha para o Rio de Janeiro. Com um medo gigantesco, chamei a atenção dela com a mão, e, no momento em que ela percebeu que eu sabia seu segredo, seu rosto congelou e começou a chorar de verdade. O peso da culpa apareceu, me fazendo sentir invasivo.


Quando se recompôs, a Paula, como se apresentou, contou como aconteceu. No grupo com seus amigos, eles, mais experientes, falavam sobre amor, namoro e sexo, e isso a fazia sentir excluída por nunca ter a oportunidade. Essa exclusão despertou um desejo de curiosidade sobre seu corpo, e, então, começou a flertar com o Matheus, amigo que tinha uma paixão secreta por ela.


Ela disse que seus pais são bem rígidos, não há confiança para contar sobre sua vida amorosa, pois sempre a criticaram e nunca a deixaram sair de casa. Além disso, Eles são evangélicos e contra o aborto, o que a deixaria sem escolha se estivesse grávida. Se eu achava minha vida ruim aos 29 anos, imagina para essa garota de 18. Assim, ela perdeu a virgindade atrás da escola com Matheus.


Apesar de ter usado camisinha, Paula continuava desesperada por estar há mais de um mês sem menstruar. Em toda madrugada, rezava Pai Nosso em busca de um milagre para que suposto bebê sumisse da vida dela. Eu disse à garota: “Faça o que for bom para ti, mesmo que seja por situações estremas, e você precisará de dinheiro”. Tudo nesse mundo é regido por dinheiro. Quando chegamos ao fim da viagem, ela agradeceu pelo conselho e disse que faria o teste de gravidez.


Depois do ano novo, encontrei a adolescente novamente e me contou que seu teste deu negativo. No entanto, a amiga que estava no grupo contou para os pais de Paula que a adolescente perdeu a virgindade. Esse foi o motivo por ir morar com os tios em Minas Gerais.


Bill Frango

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