Despertar de si mesmo
- Isabela Pelluso
- 4 de out. de 2024
- 2 min de leitura
Era uma noite fria e tempestuosa naquela quarta-feira. Felipe se preparava para sair do escritório, localizado em uma zona nobre de São Paulo, quando se deparou com seu chefe, que pediu para ficar mais tempo para resolver os problemas da última reunião. Cansado, sorriu e consentiu. Durante a madrugada, após horas e horas de trabalho, acabou pegando no sono e dormiu em sua bagunçada mesa de escritório que possuía apenas a luminária como fonte de luz. Durante o sono, ele começa a sentir um sonho vívido — intenso e detalhado — e, de repente, se vê em sua versão há 20 anos atrás.
Estava como observador de sua versão criança, naquela mesma escola situada na esquina de sua casa, no litoral de Santos, onde vivia com sua mãe e seu irmão mais velho. Era o dia da apresentação do trabalho em grupo que a professora havia proposto, cujo objetivo era fazer uma maquete de algum ponto turístico da cidade. O problema era que não tinha nada pronto e por medo da rejeição e sensação de culpa ele resolveu fazer tudo sozinho e ficou se sentindo sobrecarregado e ansioso. Observando essa situação Felipe do futuro aprendeu que daí foi crescendo esse sentimento e começou a suprimir suas vontades e desejos trancando para si e não impondo limites a tais pedidos.
De repente ele se viu nos anos 2000, em uma festa de seu melhor amigo, onde conheceu Vanessa, sua ex-namorada. Lá se conheceram, conversaram e enfim o namoro que durou mais Felipe gostaria. No início dava tudo certo, muitos encontros, beijos e juras de amor. Porém, com o tempo, foi se perdendo o encanto a rotina já o incomodava, o problema foi que o rapaz não conseguia expressar sua vontade de terminar e temia magoar Vanessa demonstrando mais vontade de agradar aos outros do que a si próprio. Isso durou anos e anos até que enfim acabar.
No dia seguinte, Felipe foi acordado pelo chefe, que percebeu que ele passou a noite lá, e disse "Dá pra ficar mais tarde de novo hoje?" o rapaz se preparava para dizer que sim quando começou a se lembrar de todos os momentos em que viveu nos sonhos e em outros momentos em sua vida em que não se priorizava e buscava uma aceitação.Saem as palavras: “Não posso“. O coração dele dispara. O olhar do chefe é de surpresa, como se jamais esperasse ouvir aquilo de Felipe, o funcionário “sempre disposto”. Por um momento, ele sente a culpa a inundar, o velho medo de decepcionar o chefe, de ser visto como alguém fraco ou egoísta. O chefe, após um breve silêncio, aceita de forma empática, dizendo: “Tudo bem, vou pedir para outro.”
No fim do expediente, Felipe saiu do escritório nervoso. Não se reconhecia. Não sabia que era tão libertador o poder de dizer uma só palavra. Se perguntava, agora com um sorriso leve, o que mais poderia dizer “não” na vida."
The Joker


Amei, texto ótimo pra que possamos refletir sobre quais são nossas prioridades, e sobre as coisas que abrimos mão em função de agradar o outro.