Ecos de uma manhã
- Isabela Pelluso
- 4 de out. de 2024
- 2 min de leitura
Naquela manhã, o som de gritos e barulhos vindos da sala de estar me despertou de um sono profundo. Era só mais um dia na minha rotina entre os estudos e as obrigações de dona de casa. Apesar do cansaço, eu nunca reclamava; sabia que isso só geraria mais brigas e discussões sem fim. Minha madrasta, agressiva e manipuladora, não aceitava ouvir um "não". Era sempre a dona da verdade, e o que ela foi capaz de fazer naquele dia foi a gota d'água.
Meu pai estava se preparando para ir ao mercado, quando de repente, ouvi seus gritos alarmantes: "Me solta! Você está me machucando! Fale baixo, não acorde minha filha, ela está dormindo!" Ele tentava conter a situação, mas, casado com ela, sentia que precisava suportar. Quando finalmente tentou sair de casa, a situação piorou.
Ao descer as escadas, ele olhou para cima, tocou a sua cabeça e para seu horror, viu a sua mão ensanguentada e a camisa manchada de vermelho. Ela havia jogado um vaso de planta nele e dizia, com desprezo: "Fiz mesmo, porque ele estava merecendo!" Meu pai, em desespero, começou a gritar por socorro. Um vizinho, que estava por perto, o ajudou e se ofereceu para leva-lo ao hospital. Com medo, ele comentou que iria fazer uma queixa na delegacia, mas ela o desafiou: "Vai lá, duvido que você faça isso."
Após escutar seus gritos angustiantes, eu abri a porta e desci as escadas correndo, encontrando-o em um estado desesperador. As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Felizmente, os médicos apenas precisariam dar sete pontos em sua cabeça. Enquanto eu me arrumava para encontrá-lo, ela entrou no meu quarto e, de forma calma, perguntou: "Menina, você está com a chave? Vou sair daqui a pouco." Com duas bolsas em mãos, ela desapareceu, e nunca mais ouvi falar dela.
A casa finalmente ficou em paz, mas o medo e a desconfiança não me deixaram. A passagem dela na minha vida e o impacto do que aconteceu criou um trauma não só em mim, mas também no meu pai. Comecei a ter pesadelos com ela e a ter medo de sair de casa. Após algumas semanas, as coisas melhoraram, mas a insegurança persistia, principalmente em relação às pessoas ao meu redor. Sempre achamos que a violência é algo que acontece com os outros, que nunca nos atingirá. Mas a verdade é que ela pode invadir o nosso lar, desafiando todas as nossas certezas.
The King


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