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Entre o Afeto e o Trabalho

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 25 de out. de 2024
  • 3 min de leitura

O cheiro de tabaco e nicotina já era familiar na casa. Estava no sofá, nos móveis, nas roupas e até mesmo no carpete recém trocado. Um maço de cigarros e uma lata de energético faziam companhia para Leandro naquela noite, que aperfeiçoava mais uma das centenas de projetos no AutoCAD em que trabalhava como arquiteto. As noites quase sempre eram assim: às 17h30 deveria sair de casa para buscar as crianças no colégio cedo, antes que a rua estreita lotasse com pais cansados que não tinham a mesma sorte que ele de trabalhar em casa; depois pedir um lanche para a família – em um limite de no máximo R$40 por pessoa – em que comeriam em horários variados, afinal não seria ele quem se estressaria para pedir que os filhos e a esposa jantassem juntos à mesa e também porque logo voltaria a se enfurnar no quarto adiantando os trabalhos que deveria entregar na semana seguinte. Naquele dia, bem como na noite anterior, ficaria até às duas da manhã trabalhando.

“Ou talvez até às três.” Ponderou Leandro, já que não era tão fácil quanto parecia sustentar uma esposa, seu filho e os outros três filhos do primeiro casamento que passariam o final de semana daquela quinzena em sua casa. Era conta de água, de luz, IPTU, colégio, pensão, mercado... Tudo se amontoava e era no trabalho que Leandro descontava – além, é claro dos cigarros e energéticos –, podendo trabalhar até doze horas por dia, ou talvez até mais, se o corpo deixasse e ele não caísse no sono assistindo a TV da sala em uma de suas “pausas de 15 minutos” do trabalho.

– Boa noite, pai. – Disse Lucas, seu filho do meio de 14 anos e com quem não tinha uma conversa profunda ou um momento de conexão real desde que havia se divorciado de sua mãe, Marcela. Sempre que o garoto aparecia na porta, Leandro bufava, imaginando que fosse pedir dinheiro para sair com os amigos ou que pagasse algo em algum joguinho online.

– Noite filho. – Respondeu no automático enquanto os olhos se mantinham vidrados na planta baixa de um prédio que inauguraria dali há três meses. Mais alguns projetos como aquele e poderia aproveitar uma renda boa para passar algum feriado em um hotel na Região dos Lagos, onde passaria quase toda a viagem no bar da piscina tomando cervejas e pensando em quais outros projetos teria que fazer como freelancer para cobrir as despesas da viagem.

Quando ouviu os passos do filho se afastarem da porta, lembrou-se de algo importante e então disparou em voz alta seu nome, na esperança de que o garoto já não tivesse se trancafiado no quarto e colocado seus fones de ouvido. Os passos ansiosos que ouviu retornando o deixaram mais calmo, mas mesmo assim precisou de mais um cigarro.

– Sim? – Perguntou Lucas entusiasmado. Talvez seu pai perguntasse como havia sido o dia hoje, ia poder dizer ansioso que havia tirado um dez no teste de língua estrangeira, que estava animado que os dois saíssem para assistir ao novo filme de herói que havia lançado nos cinemas e que tinha saudades, quem sabe assim poderiam passar mais um pouco de tempo juntos naquele fim de semana.

– Fecha a porta quando for sair. – Pediu Leandro, finalmente olhando para o seu filho por cima do ombro para ter certeza de que fecharia a porta da forma “correta”. Encontrou os olhos cabisbaixos de Lucas enquanto ele fechava a porta, com uma expressão decepcionada e um tanto perdida.

– Tudo bem, filho? – Inquiriu seu pai, franzindo o cenho enquanto buscava decifrar aquela pessoa que tinha dificuldade de reconhecer. – Aconteceu alguma coisa?

Em resposta, o garoto levantou o olhar, fechou o punho enquanto encontrava os olhos do pai e soltou um suspiro frouxo, desviando o olhar. Segurava a maçaneta com as mãos trêmulas, mas Leandro ainda tentava decifrar seu rosto que se mantinha pétreo, se prestasse mais atenção nele, saberia que suas mãos o denunciavam.

– Tô legal, só cansado. – Lucas disse com um sorriso sem jeito.

A expressão do pai foi de preocupação para alívio, pelo menos não teria de pagar a terapia.


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2 comentários


magriuff
15 de jan. de 2025

uau, apenas uau. Muito emocionante

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nenúfar
nenúfar
29 de out. de 2024

texto muito bem escrito, que angustiante ler isso sabendo que essa é a rotina de tanta gente... no final soltei a respiração que eu nem sabia que tava prendendo hahahah

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