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Jovem-adulta-perdida-que-acha-que-sabe-da-vida

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 25 de out. de 2024
  • 2 min de leitura

Quando percebi que vivia o inferno na terra, escrever já era meu refúgio. Processo de cura. Gritar, por meio do papel, tudo aquilo que nunca consegui falar se tornou a única coisa que me fazia sentir. Passei, então, a libertar tudo que deixei morrer na minha garganta vezes demais na minha infância e adolescência. Na recorrente vida de uma jovem-adulta-perdida-que-acha-que-sabe-da-vida.


Meses depois, quando o diagnóstico veio, meu rosto não transpareceu surpresa. Ou medo. A verdade é que eu não senti nada. Total indiferença. A única coisa que ocupava minha mente era minha sobrevivência. E bom, como disse, teve um tempo que, pra mim, escrever era tudo. Escrever música, poema, poesia era quem eu era. Ou, pelo. menos, quem eu achava que era. Mas, depois de um tempo no inferno terreno, me arrastando por pedras quentes, isso me foi retirado. Parei de sentir. Me arrancaram a única ação que ainda me fazia sentir viva. Sem forças para ser resistência, foi a última coisa que tiraram de mim. Sem pedir licença. Promover o encontro entre papel e caneta se tornou automático. Sem intenção. Sem emoção. E, sinceramente, eu não havia percebido até hoje. Até começar a recapitular tudo o que eu ganhei e perdi, que senti e não senti.


Pensei que estava bem, ou melhor, melhorando, mas, escrevendo esse texto, percebo que não. Achava que, agora que finalmente tenho aberto as cortinas, que finalmente sei se lá fora faz noite ou dia, eu tivesse superado. Pensei que estava a poucos quilômetros do céu. Da linha de chegada. Agora vejo que quando se é escolhido pela vida, pelas condições biológicas, mentais e sociais desse mundo idiota, não tem mais volta. O inferno nunca vai completamente embora. Você convive durante a vida.


E, sinceramente, não sei mais o que falta. Me mudei. Voltei pra cidade maravilha. Tenho saído de casa. Construí uma rotina. Tenho pessoas novas em minha vida. Por Deus, o que falta? O que eu preciso fazer pra voltar a sentir? Voltar a ser sentimento e não lágrima? Voltar a ser desejo e não desempenho? Voltar a escrever sentindo na pele tudo o que seja do meu direito de sentir. Me perdi, pensei que havia me encontrado mas, agora, entendi que só encontrei uma pequena parte. Tudo o que tenho feito, desde então, é tentar e tentar e tentar. Espero não queimar antes de chegar lá.


Lucy Ball

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