Noite no Boteco
- Isabela Pelluso
- 30 de nov. de 2024
- 3 min de leitura
O clima primaveril de Novembro trazia aquela umidade constante e o calor intenso que gruda no corpo e causa um desconforto a qualquer carioca que não tivesse o luxo de ter um ar-condicionado ou ventilador apontado para si no conforto de casa. “Desconforto” era a palavra para aquela ocasião onde Gilberto, Carlinhos e Paulo se encontravam.
Sentados em volta de uma mesa amarela da Skol no Boteco do Menezes, os três amigos encaravam com desprezo a pequena televisão que transmitia com a imagem “chiada” o Jornal Nacional, noticiando a falha tentativa de golpe orquestrada pelos militares.
— Desliga essa porra de Globolixo, Zeca! — Rugiu Gilberto golpeando a mesa com um tapa, o tremor da mesa de plástico derramou parte do colarinho do chopp de Paulo. Zeca, um senhor de idade na faixa dos 60 anos, lançou um olhar de soslaio para Gilberto em reprimenda, os olhos pequenos por detrás dos óculos apoiados no nariz protuberante do dono do boteco.
— Vai quebrar a porra da minha mesa, Beto. — E com um muxoxo, trocou de canal para alguma rede evangélica que vibrava um louvor estourado na caixa de som da pequena TV.
— Eu falo pra vocês, desde 2015 taxista fazendo merda! Se esse malandro tivesse pego um Uber, deixava na cara do gol pra pegar o careca do STF. — Proclamava com orgulho do aplicativo em que trabalhava. Desde que começou a seguir os passos de um coach que dizia ser capaz de enriquecer com oito meses sendo motorista de aplicativo, o engenheiro civil havia adquirido uma vívida imaginação e uma postura totalmente defensora das empresas privadas.
— Naquela hora Beto? E pagar o que? Noventa pau pra ir pra um estacionamento de um shopping? Tu pirou de vez… — censurou Carlinhos desdenhosamente — tô te dizendo, esse golpe só não foi pra frente porque não tentaram envenenar o “9 dedos” e o Alckmin. — tomou um gole do chopp antes de prosseguir — Já viu aquele vídeo que o motoboy abre a caixa de pizza e tira uma fatia pra ele comer?
— Filha da puta… — Disse Paulo com um sorriso no rosto, sorvendo um longo gole de seu chopp.
— Porra, genial. — continuou Carlinhos — O maluco abre a caixa, angula a fatia perfeitinho, come, junta o resto da pizza e pronto, cliente nem sabe que passaram a perna nele. Aí ao invés de comer a porra da pizza, bota um veneninho ali, lacra a caixa e pronto, cancela o CPF dos dois. No fim quem se fode é o iFood e pronto. — seu entusiasmo era palpável, bem como sua crença na viabilidade de seu plano “genial”.
— Ou então bota na cachaça do molusco, aí mata essa esquerdalhada toda. — Sugeriu Paulo ironicamente, em seu tom soturno habitual. O comentário gerou uma gargalhada do trio, embora a frustração da falha no golpe permanecesse no ar como uma nuvem de decepção e desesperança.
Tão rápido quanto a gargalhada veio, ela se esvaiu e um silêncio sepulcral se instaurou no ambiente. Seus olhares eram cansados e mórbidos e não havia chopp naquele boteco que acalentaria o coração dos patriotas. Isso até que o telefone de Gilberto vibrou com a notificação de uma mensagem, ao lê-la, um sorriso se formou entre os lábios.
— O que foi? Tiraram as acusações do capitão? — indagou Carlinhos em tom jocoso, mas com um quê esperançoso. Paulo acompanhou o companheiro com um olhar semelhante, encoberto pelo cansaço da jornada seis por um que faria naquele final de semana.
— Nada. O Bolsa Família caiu na conta, agora vai dar pra pagar a última parcela da dívida do FIES da Julia. — Comentou enquanto encaminhava a mensagem para esposa e filha, matriculada à contragosto pelo pai em uma privada de renome.
Os companheiros devolveram o sorriso para Gilberto, cada um encarando o colarinho de seu próprio caneco. Pelo menos alguém tinha se dado bem naquela noite. Só torciam para que a filha do amigo não crescesse para se tornar uma esquerdopata.
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