top of page

Nunca Gostei de Ninguém

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 4 de out. de 2024
  • 2 min de leitura

É bem verdade que nessa vida de adulto-novo não faz bem se agarrar ao passado. O mundo não é mais o mesmo. Agora, nenhum compromisso depende mais do clima: se o dia acordar chuvoso eu vou trabalhar do mesmo jeito, sem abrir mão do dia pra assistir desenho. Um absurdo. As vezes fica impossível não deixar a nostalgia me levar.


Ali pelos meus 9 anos era tudo mais azul, praticamente nada tirava a paz do meu trajeto de casa pra escola e vice-versa. Nada a não ser uma perturbação que atendia por Alana. Tinha pouquissima altura, pele branca como neve e era a menina mais bonita da sala com tranquilidade. Era realmente um encanto: filha de americanos, falava inglés melhor que qualquer ator de Hollywood e tirava as maiores notas da turminha. Eu, timido como só, fingia que não tava nem ai pra ela, num teatro bem mequetrefe.


Nunca fui bom em disfarçar emoções mas levava jeito pra matemática, e a conta era simples: eu, o mais baixo e mais novo da turma, franzino, competia contra cerca de 15 moleques trabalhados na desenvoltura e na coragem. As chances de sucesso eram baixíssimas. Era mais inteligente nem tentar.


E assim fiz (ou melhor, não fiz) até o fim do periodo escolar. Nunca tomei uma atitude, Alana voltou pra terra do Tio Sam e eu fingi que nada aconteceu. Agora, entrando no ensino médio e com a vida um pouco mais complicada, eu me gabava de nunca ter gostado de ninguém. No meio daqueles adolescentes confusos que descobriam seus primeiros romances eu me achava o máximo. Enganava todo mundo, menos eu.


Só abaixei a crista quando, durante as férias, conversei com um menino que era novo no bairro. Na verdade um velho novo, pois o jovem jurava de pés juntos que tinha não só estudado comigo, mas também que escondeu uma paixão profunda por mim durante todo o periodo escolar e nunca me disse nada devido a timidez. Eu busquei até o último arquivo do meu cérebro mas não identifiquei quem era aquela figura. Caramba, como ele passou desapercebido por mim esse tempo todo? O moleque era mesmo habilidoso pra esconder seus sentimentos. Queria eu ter esse talento. As peças só foram se encaixar quando mudamos de assunto e o menino, de baixa estatura, pele branca como neve e que atendia pelo nome de Alan, me contou sobre os desafios que enfrentou na pré adolescência por se assumir transsexual no periodo em que morou nos Estados Unidos.


Joelitonson Jamelão

Posts recentes

Ver tudo

8 comentários


Abebe Shakur
Abebe Shakur
20 de jan. de 2025

Lírica potente, Jamelão!!

Curtir

Rosa Branca
Rosa Branca
14 de jan. de 2025

que plot twist!! nem acreditei no fim. me senti ouvindo sua história. amei ler!

Curtir

Bill Frango
Bill Frango
11 de jan. de 2025

Escrita perfeita, texto maravilhoso!

Curtir

Christina Rocha
Christina Rocha
09 de jan. de 2025

caraca, não esperava o final.

Curtir

Melofia
Melofia
10 de out. de 2024

adorei o texto, ainda sem acreditar no final

Curtir

©2024 por Ufficina de Leitura e Produção Textual 

bottom of page