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Perdi a Hora

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 4 de out. de 2024
  • 2 min de leitura

Atualizado: 9 de out. de 2024

Hoje enquanto esperava meu ônibus partir do terminal, já sentada e pronta para iniciar a viagem, vi um senhor entrar às pressas. Subiu as escadas e, rindo sem graça, agradeceu ao motorista por esperar por ele. Por um segundo breve dividi da mesma gratidão que ele, é um alívio quando alguém espera por nós.


Me pergunto se alguém esperaria por mim quando eu me atrasasse, me pergunto até se eu sequer teria a bravura de correr atrás de um dos vários ônibus prestes a partir da minha vida. Eu sempre contemplativa — quase alheia, tento acompanhar o ritmo de tudo, mas nunca parece suficiente.


“Vou outro dia”, “tento outra hora”, “quem sabe na próxima”. E nessa obsessão por adiar, perco viagens e mais viagens, às vezes interessantíssimas, outras vezes apenas viagens. Mas todas com algo para ver, quem sabe a paisagem fosse interessante, ou quem sabe o destino fosse mais legal do que o trajeto. Nunca vou saber. Às vezes tento me confortar me agarrando a ideia de que talvez aquela viagem não fosse para mim, ou até mesmo a de que eu conseguiria encontrar aquele mesmo ônibus uma outra hora. Mas, no fundo, sei que nenhuma viagem é igual a outra, e que nenhum ônibus carrega os mesmos passageiros duas vezes. Com isso, o que resta é esperar o próximo, torcendo para não o perder também.


Quanto ao senhor, não o vi sair do ônibus, desci antes e desejei um boa noite. Fiquei curiosa para saber aonde ia — afinal, éramos só nós dois e mais uma mulher naquele grande contêiner com rodas, mas estava com pressa então não me prolonguei nos devaneios. É preciso também saber a hora de descer e encerrar nossas viagens.


Ao chegar em casa fui recebida pelo meu amigo e colega de quarto, me disse que esperou que eu chegasse para jantarmos juntos. Naquela hora percebi que estava me fazendo as perguntas erradas, ninguém tem a obrigação de nos esperar, mas quando achamos as pessoas certas a espera vale a pena porque a viagem nunca é igual sem elas, e o relógio se move mais devagar. Já não me martirizo tanto quando vejo que me atrasei, as vezes os atrasos servem para ver quem esperaria por nós, e se ninguém esperar, a gente aprende a caminhar sozinho.


Espero que hoje eu não perca a hora.


Nenúfar

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1 comentário


Rony Rústico
Rony Rústico
10 de jan. de 2025

Bom demaisss, escrita muito boa

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