Se eu fosse eu
- Isabela Pelluso
- 4 de out. de 2024
- 2 min de leitura
Nasci assim, triste. Será que a biologia explica essa tristeza intrínseca? Ou terei que partir para as dores e curas da poesia?
Ando por essa cidade morta por dentro. Preciso me consertar mas não tenho tempo. Eles falam que eu mereço andar na luz sem me perder nas trevas. Será mesmo? As vezes, me pego pensando em quem eu seria se eu fosse eu. Se eu fosse eu, voaria sem me importar, brincaria de ir embora e nunca mais voltar. Se eu fosse eu, jogaria as máscaras no altar, amaria sem me culpar. Se eu fosse eu, talvez conseguisse chorar até desmoronar, deixaria meus olhos livres para imundar. Se eu fosse en, a vulnerabilidade seria meu lar, lugar de paz.
Quilômetros eram rotina, Sorriso falso? Minha obra prima! Não percebia que me reprimia. Hoje, eles se perguntam: 'quem ela virou da noite pro dia?". Moça linda, mas não me sentia. Pelo bairro me escondia. Engraçado, decifrava, nunca decifrada. Olhos cor de mel, boca de aluguel. Por fora, secas, por dentro, rios. Nunca saberão dos meus vicios
Criada na prisão que acreditava ser castelo, pensei que vivia no paraíso quando, na verdade, estava a um passo do inferno. O ar frio, as montanhas, a casa, a visão da vida. Quem eu era pra quem me conhecia? A respiração forçada, o corpo pesado de carregar um falso ser em pedaços. Tinha me acostumado, menti tanto que virou minha realidade. Fui manipulada até arrancar meus pedaços. Irônico, mas acho que fui feliz em partes.
A cabeça tão aberta, o coração tão fechado. Pobre coitada. Porque se trancar a sete chaves? Porque ter medo do passado? Os que condenam não sobreviveriam um dia na pele de um aprendiz, aspirante à artista.
Até tentaram dar diamantes pra quem estava acostumada com pedras. Eu sempre fui uma escolha péssima. Mas, por algum motivo, as cores do amanhecer falavam comigo. De alguma forma, eu sinto. Rezo e faço sacrificios. A vida vai voltar a fazer sentido.
Lucy Ball


Me identifiquei muito com esse texto, obrigada por compartihar...