Sem Título
- Isabela Pelluso
- 4 de out. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de out. de 2024
Gostava de pensar que vivia em uma dicotomia. Via sua mente como um espectro linear, cujos polos equidistantes eram mediados pelo seu “eu-principal”, trazendo para a vivência diária uma perspectiva completamente oposta a outra: em um dos polos desse espectro, atribuía todos os seus mais sórdidos pensamentos, impulsos e desejos, onde vivia de forma boêmia e agressiva, bradando sua opinião como uma carabina sedenta por sangue inocente, onde ousou nomeá-lo de Johann. Enquanto na outra, a quem apelidou carinhosamente de Hesse, era uma poeta apaixonado, espectador melancólico e cidadão cortês que encarava a vida com leveza e desapego, trilhando passos dançantes pelas ruas da cidade, flutuando em um mundo imaginário desconexo da realidade.
Sua válvula de escape para permitir que estes dois vivessem em harmonia dentro de si era através de uma pequena caderneta de couro surrada. O papel e a caneta permitiam que Johann sangrasse sua verborragia hostil e depravada, enquanto Hesse desatava os nós dos emaranhados lúdicos que se formavam pelos sentimentos engasgados de seu eu principal, concatenando suas ideias na forma de poesias espirituosas ou cartas para si mesmo.
A caderneta havia se tornado uma extensão sua e a carregava para cima e para baixo como se fosse sua sombra, o produto refinado de todos os seus íntimos pensamentos materializados em 256 páginas A8 de coloração amarelo desbotado. Porém, uma sombra sempre o acompanharia sem que precisasse se atentar se estava ali ou não, e definitivamente sua sombra não cairia no vão de sua poltrona favorita da cafeteria que visitava regularmente e era conhecido por seus funcionários.
O dia havia sido excelente até tocar no bolso traseiro da calça jeans e perceber que seu banco de pensamentos intrusivos não estava mais lá. No momento de realização do que ocorrera, o coração começou a palpitar, as palmas das mãos suavam e todo e qualquer olhar direcionado a si carregavam um aspecto julgador. “Será que todos já sabem o que guarda minha mente perturbada?” – Indagava a si mesmo enquanto evitava o contato visual e traçava seus passos de volta aos últimos lugares que tinha ido.
Enquanto caminhava estava certo de que em algum momento, algum transeunte iria o parar e condenar por cada verso escrito naquele caderno, como se houvesse assinado sua própria sentença ao deixar que sua mente regurgitasse aqueles pensamentos que guardava apenas para si. “Minha imagem será arruinada, eu estou completamente perdido.” – Profetizou quando abriu as portas do fatídico estabelecimento e com passos cautelosos analisou todo o ambiente à sua volta, procurando por sua lúgubre condenação.
Um frio sepulcral desceu sua espinha quando percebeu o objeto repousando em cima do balcão onde pagara a conta no dia anterior. Parecia que o caderno zombava de si, ou então que esperava completamente nu na fila de pagamento. Pálido como um cadáver e gaguejando emotivamente, questionou ao atendente :
– B-Boa tarde, p-por um acaso v-vocês encontraram um caderninho pequeno por aqui ontem? É meu e... – Antes que pudesse terminar a súplica, a atendente apenas sorriu, virou-se de costas e deslizou o objeto de volta para seu dono. Um misto de alivio e nervosismo o assombraram durante o caminho de volta para casa. Não sabia dizer se o sorriso da atendente era resultado de um triunfo sádico ao ver-lhe implorar pelo que era seu por direito, ou se eram as vozes de Johann que sussurravam sua danação naquele momento, mas não ousou abri-lo e espiar pelas páginas até chegar em seu quarto.
Com a porta trancada, perscrutou desesperadamente as páginas enquanto relia cada uma de suas passagens, alucinando com os possíveis castigos que deveria expiar por dar vida e voz àquilo que deveria ser mantido oculto e silenciado, até que finalmente encontrou o que mais temia. Um recadinho escrito em letra cursiva no rodapé de uma das últimas folhas o forçou a estreitar os olhos e absorver quais as demandas que o captor de sua intimidade exigiria por seu silêncio.
O que se seguiu foi um misto de desgosto, decepção e reflexão do tal eu-principal, enquanto Johann uivava no fundo de sua mente os mais exaltados insultos e Hesse contemplava se sua concepção era uma mera piada de mau-gosto. Pois o que estava escrito no fim de seu caderno, lia-se: “Que curioso esse exemplar de Twitter físico.”
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