Sem Título
- Isabela Pelluso
- 9 de out. de 2024
- 2 min de leitura
Ao contrário do que ouvimos, pensamos e aprendemos, nem toda nova descoberta quando se é uma criança é motivo de sorrisos e alegrias. E nessa mesma fase da vida o que é pior do que se ouvir um “não”? Derramar lágrimas e distribuir a minha ira pela resposta negativa não conseguiu ser tão difícil quanto entender por que o meu amiguinho podia e eu não.
Tão normal quanto levantar-me da minha cama às 6 horas da manhã, era finalizar um pedido com “todo mundo vai” e em seguida receber de maneira rápida:
- Filhote, você não é todo mundo.
Fui-me para a escola. Sem contestar, eu sempre interpretei essa frase de forma a parecer que eu era alguém especial.
Chegar em casa após um dia de aula, sempre havia sido muito monótono, até que mais tarde, uma espécie de transição nasceu, onde parei de apenas buscar entender por conta própria e as perguntas começaram a surgir.
- Mamãe, por que o meu olho esquerdo é diferente do direito?
Vê-la interromper o uso da panela de pressão para me olhar, me fez refletir se eu não havia feito a pior pergunta da minha vida. Seus olhos alternando em mim e em meu pai me tiravam essa dúvida, mas produzia diversas outras na minha cabeça.
Largou a panela, secou as mãos e lentamente se sentou do meu lado. Foi um turbilhão de informações. Agora tudo fazia sentido. Assimilar que todas as vezes que eu tropecei em buracos na minha rua não foi porque eu era desastrado. Entender que sempre que eu parava no mato andando de bicicleta, não era porque eu não sabia andar. Perceber que quando eu não passava a bola para o meu companheiro de time na esquerda, nunca foi porque eu não entendia nada de futebol.
Para mim, enxergar o mundo como eu enxergava, era normal. Aprender e me adaptar à uma nova realidade é trabalhoso. Saber que tudo aconteceu para me preparar para a fase mais difícil que eu iria enfrentar, até porque, nada mais perturbador que a adolescência.
ET Bilu


Não estava esperando para onde esse texto iria chegar, adorei como conseguiu conduzir a crônica de forma fluida até chegar no ponto alto. Muito bom!