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Talvez

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 25 de out. de 2024
  • 2 min de leitura

Me olho no espelho e mais uma vez não gosto do que vejo. Sempre assim, nunca bom o bastante, nunca controlado o bastante, nunca rápido bastante, nunca perfeito o suficiente. Me olho no espelho novamente e traço cada detalhe fora do lugar, cada detalhe que tenho que concertar, seja ele interno ou externo. Reviso minha alma e faço uma lista mental do que tenho que mudar, mudar para melhor e só o melhor, penso em anotar pra não esquecer - como se cada defeito e erro meu já não estivesse entalhado na minha alma. Fecho os meus olhos e de repente tenho 14 anos de novo e estou naquela maldita casa na árvore, a voz do velho enrustida na minha mente


-Por que você não pode errar?

-Porque no final vai ser eu

-No final vai ser você! Por isso você tem que ser perfeito e nada mais além do que isso. Seus irmão e primos podem ser bons, podem errar mas você precisa ser perfeito.


l5 anos depois, um abandono, um enterro pra conta e ainda não consegui descobrir como ser perfeito, como ser melhor. Do que adianta existir se não sou nunca bom o bastante, do que adianta existir se no final não fui eu, do que adianta existir se minha mãe não fez questão de ficar - talvez se eu fosse um filho melhor-, do que adianta existir se não estou na melhor faculdade e melhor curso-talvez se eu tivesse estudado mais e dormido menos-, do que adianta existir se não consigo manter bons relacionamentos-talvez se eu falasse menos-. Talvez, talvez, talvez e mais talvez, cansado de nunca acertar, nunca ser o melhor em nada que me proponho a fazer, cansado de me arrepender. Arrependimento, tá aí outro erro meu. Só pessoas que podem errar se arrependem, se arrepender significa assumir que errou, eu não posso me dar esse luxo, não posso deixar arrependimentos tomarem minha mente, isso significa continuar errando e eu não posso fazer da minha existência um erro. Não posso jogar o jogo do “e se” porque não posso me permitir errar, não posso permitir pensar em outras situações sem ser as que eu vivo e realizo, minha decisão precisa ser a melhor, eu preciso ser o melhor. Ainda não sou perfeito o bastante, não to fazendo o certo o bastante, mas tenho que continuar tentando e no final do dia sobreviverei. Sobreviver, acho que é isso que tenho feito, afinal viver significa prazer é o prazer da abertura ao erro, eu não posso errar. No final do dia sou um sobrevivente com um voz agonizante na minha mente dizendo que ainda não sou perfeito o bastante - talvez tenha sido por isso que no final não fui eu- o velho morreu e me deixou sem nada e sem alcançar a perfeição, talvez eu não seja bom o bastante pra isso também.


Magrí

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2 comentários


theking.k107
19 de jan. de 2025

Me identifiquei muito com o seu texto.

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Clarice Lispector
Clarice Lispector
14 de jan. de 2025

Incrivel sua coragem em compartilhar esses sentimentos.

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