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A menina que não gostava de nenhuma boneca

  • Foto do escritor: Isabela Pelluso
    Isabela Pelluso
  • 4 de out. de 2024
  • 4 min de leitura

Não é que Helena odiasse seus presentes ou se recusasse a brincar com eles, muito pelo contrário, ela estava sempre com um brilhante sorriso no rosto, acompanhada de algum de seus brinquedos. Mas, a cada nova boneca que ganhava, sentia-se mais distante daquela que realmente queria. A menina dos cachinhos dourados sonhava, desde pequena, com a boneca que seria diferente de todas as outras que havia recebido até então, e sabia, lá no fundo, que um dia a encontraria.


Certa manhã, Helena levantou-se de sua cama, calçou os chinelos e caminhou com passos pequeninos até a sala, em busca de sua mãe, que, naquele horário, provavelmente já teria servido sua tigela de cereais. O que aconteceu, porém, foi um fein tropeço, que acabou por deixar a bochecha da menina arranhada com a queda. A procura do que a havia feito cair, Helena olhou para trás e viu uma linda boneca de pano, com longos cabelos ondulados e escuros, muito diferentes dos seus cachos dourados, mas igualmente brilhantes. A pequena rapidamente pegou a boneca em suas mãos e soube, de imediato, que aquela era a boneca que sempre experou. Ao segurá-la, Helena notou um relevo na parte de trás da boneca e viu uma data bordada no macacão de pano que ela vestia. Naquele momento, Helena entendeu que sua nova boneca só seria sua até o dia de seu. próximo aniversário.


Ainda que com um aperto no coração, a menina decidiu aproveitar ao máximo cada segundo com a boneca. Dormia e acordava com ela nos braços, levava-a para todos os seus passeios, fazia planos futuros mesmo sabendo que não os realizaria e contava para ela suas melhores histórias. Assim, para além da admiração instantânea, Helena passou a amar sua boneca com todo o seu ser, tornando-a parte de sua rotina e felicidade diárias.


Com o passar dos dias, passaram-se também semanas e, consequentemente, os meses que tanto a fizeram feliz. Até que, um mês antes de completar 10 anos, Helena voltou a pensar na despedida como nunca havia pensado durante todo esse tempo. Não por não saber que o dia chegaria ela sabia desde o primeiro dia, mas pela necessidade de vivenciar aquilo que sempre quis da melhor forma possível. O aperto no coração da pequena era imenso, mas ali, no presente, ela ainda tinha sua boneca em seus braços. Então, Helena a apertou mais forte que nunca, demonstrando todo o seu carinho naquele abraço, enxugou as lágrimas e voltou a dormir.


Inevitavelmente, a noite anterior ao aniversário de Helena chegou. A alegria de todos ao seu redor era imensa, já que ela era uma menina muito amada por seus pais e amigos, querida pela vizinhança e pela escola. No entanto, para Helena, não era um dia tão feliz quanto nos anos anteriores. Na verdade, a menina se sentia perdida, sabendo que, a partir do dia seguinte, sua coisa favorita no mundo não acordaria mais ao seu lado, não ouviria mais suas histórias, não a acompanharia todas as manhãs para comer sua tigela de cereais e, principalmente, não seria mais sua. Por isso, Helena decidiu fazer da véspera de seu aniversário o dia mais especial de todos. Mesmo que seus olhos transbordassem lágrimas involuntárias a todo momento, ela abraçou sua amada boneca e a levou para a sala, onde passariam o dia vendo seus desenhos prediletos pela última vez.


Ao anoitecer, Helena deitou-se em sua cama com a boneca abraçada em seu peito, assim como fizera todos os outros dias nos últimos seis meses, e chorou. A menina chorava por muitos motivos e, ao mesmo tempo, por motivo nenhum, afinal, ainda tinha sua boneca ali. Helena olhou para sua boneca de pano e disse que sempre esperou por ela, que a amava, que ela faria muita falta, que aqueles seis meses foram os mais felizes de sua curta vida e que nunca a esqueceria. E então, por uma última vez, abraçou sua amada boneca e fechou os olhos


Ao acordar, Helena percebeu a ausência da boneca entre seus braços, que já tremiam pelo choro inevitável e pela dor que atravessava sua garganta. A menina, muito jovem, nunca havia perdido nada, muito menos algo tão importante, que tanto queria, que tanto esperou e que a fez tão feliz. Mesmo sabendo que esse dia chegaria, a saudade já estava presente em todo o corpo pequeno de Helena, que olhou para o seu quarto e viu, por todos os lados, memórias agora doloridas de algo tão bom que viveu. Helena ainda não estava bem, ainda não conseguia sentir felicidade ao lembrar de sua felicidade; tudo ainda estava muito à flor da pele. Mesmo que sua coisa favorita no mundo não estivesse mais palpável, ela ainda estava presente em tudo.


Helena soube, assim que encontrou sua boneca, há seis meses, que o verdadeiro valor de algo não está em sua permanência, mas na vivência e no sentir. No entanto, essas memórias, agora, traziam apenas tristeza. Ela sabia que tinha vivido algo profundamente especial, mas isso não diminuia a dor que sentia agora. Naquele instante, o futuro não importava e o presente era marcado pela saudade. A boneca se fora, e com ela, um pedaço de Helena que ainda não sabia como se recompor.


A verdade é que dõi em Helena saber que sua boneca não está mais consigo, que, onde quer que ela esteja, Helena não pode mais compartilhar sua felicidade e seu dia com sua boneca preferida no mundo e vice-versa. É claro que Helena sabe que ficará bem em algum momento, mas a dor da perda e da saudade são muito claras e não parecem ir embora, mesmo com o passar dos dias, das semanas e, consequentemente, dos meses.


"Como sou sortudo em ter algo que faz com que dizer adeus seja tão dificil." - Atribuído a Winnie the Pooh, personagem de A. A. Milne


Estela Lis


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