Muito Mais que 7 Pecados Capitais
- Isabela Pelluso
- 29 de nov. de 2024
- 3 min de leitura
Terça-feira. 19 de novembro. Sai da sala de cinema com uma tempestade nos meus olhos. ‘Ainda Estou Aqui’ me deixou arrepiada do começo ao fim. Como tudo aquilo aconteceu? Porque nunca foram punidos? Eu não tinha resposta para nenhuma dessas duas perguntas. Comotodo mundo dentro daquela sala, fui embora atordoada e, chegando em casa, encontrei minhamãe e meu irmão na frente da televisão. Jantavam enquanto ouviam no Jornal Nacional William Bonner e Renata Vasconcelos falarem algo sobre um golpe e assassinatos. Típico. Desde queentrei na faculdade federal de jornalismo, há 1 mês, eles não perdem uma grande notícia. Aesperança que havia nos olhos da minha mãe de um dia ser eu dentro daquela bendita tela era aúnica coisa que ainda me fazia levantar da cama.
Deitada e quase dormindo escutei um grito vindo do pequeno cômodo ao lado do meu. É umpouco cômico como em minutos a história de uma nação pode mudar. Corri e me deparei comhomens com roupas militares levando minha mãe. Presa. Minha mãe. Professora de História.Presa. Homens que diziam torturar em nome de DEUS. Brancos que diziam matar em nome daamada PÁTRIA. Generais ricos que se orgulhavam de cometer atrocidades para ‘proteger’ suas FAMÍLIAS. Enquanto a arrastavam eu não conseguia fazer nada além de chorar e fazer milpromessas para Nossa Senhora de Aparecida, implorando para que tudo não passasse de um malentendido. Eu já havia visto aquele filme antes. O final não era bonito.
O plantão do jornal anunciava: Golpe de Estado. Presidente, vice-presidente e ministromortos. Assassinados. Veneno, explosões e tiros. Pelos mesmos que invadiam a minha casa etiravam minha mãe de mim. Por aqueles que batem no peito e fazem grandes discursos sobre aimportância da vida. Os grandes salvadores da Pátria que nunca salvaram porra nenhuma. Minhas pernas falharam, queria vomitar. Ditadura militar. Peles claras vestidas com camisasverde-amarelas atacando Brasília, destruindo nossa herança. Justiceiros? Sodoma e Gomorrabrasileiras. Patriotas. O que esperar de um país que não sabe o que é a democracia? Um pouco mais de 60 anos em regime democrático não parecem ser grande coisa. Abracei meu irmão enquanto tentava dizer algo de conforto que não fosse mentira. Ela voltaria Como sobreviveríamos ?
Acordei. Assustada. Buscando ar. Minhas mãos tremiam. Suava frio. A última coisa que melembrava era de ter chegado tarde, depois do cinema, ter murmurado um ‘bença, mãe’ e seguirdireto pro meu quarto. Olhei pros lados e vi que Kelvin e Eugênia, ainda enrolados um no outrocomo se fossem uma só grande bola de pelo, olhavam com seus olhos felinos arregalados pramim. Só assim, depois de segundos torturantes tentando reaprender a respirar, me dei conta deque tudo não passava de um pesadelo. Um daqueles assustadoramente reais. ‘Tá tudo bem, eu tobem’, sussurrei para os dois gatos que me encaravam. Levantei, eram 6:57, observei minha mãee meu irmão dormindo na cama ao lado. Abri a pequena e velha janela do quarto. Espiei Dona Sônia descer a rua; indo para a pequena loja de doces a qual era dona. Seu José, do ponto deônibus, me direcionou um breve aceno o qual correspondi com um sorriso. Ele pegava às 9 emuma loja de roupas no centro mas precisava sair de casa muito antes. Era longe, o ônibusatrasava, o trânsito nunca ajudava. Fechei a janela, beijei meus filhos e me deitei novamente. Enquanto tentava aproveitar meus últimos minutos de descanso, agradeci a Deus por, dessa vez, tudo não ter passado de um filme de terror criado pela minha própria cabeça. Lembro que euainda estou aqui. Nós ainda estamos aqui. E, bom, Deus está conosco. Ele nos livra de todo mal. Amém.
Lucy Ball


Escrita boa demais, o texto passa com leveza. Curti muito!
adorei as associações do seu texto! que escrita boa, parabéns!