Mãe
- Tótem
- 27 de mar.
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O nó que se forma em minha garganta não é fruto do acaso quando me percebo submetida ao viés maternidade. Julgam ser efeito do pensamento juvenil o que na verdade é aversão. Tudo o que me remete ao materno é desprezo. Sou fruto do repúdio e raiz da decepção, regada em olhares rancorosos e palavras cruéis.
Aprendi a odiar a minha essência muito cedo — entregue a tantas representações culturais da pureza na relação entre mãe e filha, que me senti culpada por não ser merecedora do acolhimento que a figura materna representava.
Sem a nascente do meu rio de amor, compreendi que não era merecedora do leito, dos afluentes e sequer da foz. Como consequência, me sujeito à privatização do sentimento. Me entrego a dor mensal no ventre sempre que posso, desejando ser maléfica, para que eu nunca seja capaz de sujeitar outro ser humano a tamanha violência ao ponto de viver em tamanha angústia.
O tabu que envolve ser mãe para mim vai além das margens da juventude, é pavor. A imagem maternal no meu inconsciente equaliza o abuso — a violação da criança que sempre ansiou pelo conforto e recebeu opressão. Quem me dera ser jovem e teimosa à uma alma ferida.
— Tótem

Poeticamente perfeito. Muito boa metáfora/analogia do rio.
Para mim soube contar muito bem a dor de pertencimento. Essa parte mexeu comigo: "Aprendi a odiar a minha essência muito cedo"
retratou o trauma da forma mais poética possível, impecável.
Simplesmente incrível e tocante.
Adorei o uso da figura do rio no texto