A Dupla Face Da Comida
- Ila Nazareth
- 27 de mar.
- 2 min de leitura
A comida é algo necessário à vida humana. É impossível falar da experiência que é viver sem atrelá-la a essa coisa. Tão importante que hoje podemos cursar nutrição e gastronomia para entender melhor esse enganosamente simples elemento. Seja tratando de seu aspecto cultural, de nossa necessidade biológica ou de seu valor psicológico.
E apesar da comida ser multifacetada para mim, essa última parte foi protagonista em grande parte de minha pequena vida. Talvez tenha começado na aula de ballet, quando minha professora comentava sobre a gordura que habitava meu corpo e depois, quando me distraía, falava que eu estava pensando na refeição que faria depois da dança. Talvez quando observava minha mãe se olhar no espelho e dizer que deveria "fechar a boca". Talvez quando eu saía de casa e algum conhecido rasgava observações sobre minhas coxas grossas, mesmo sendo tão pequena. Talvez quando alguma professora beliscava minhas bochechas gordinhas, "tão boas de apertar". Ou talvez quando, já maior, eu observava os corpos das minhas amigas, que não tinham curvas como o meu.
No entanto, isso não importa. O que importa é que sempre ocupou um lugar obscuro de minha mente.
Ou possivelmente não mais. Quem sabe eu já tenha superado o chiclete pra enrolar a fome. As técnicas pra esconder a barriga. As dietas malucas. As horas a fio, às vezes dias, sem comer. Os vômitos após as refições. Quem sabe tudo isso já tenha ficado pra trás. Foi há tantos anos, afinal.
É o que acredito, até porque hoje me delicio em restaurantes sem nem pensar mais nessa época conturbada.
Mas nem tudo é o que parece.
Quando estou comendo torresmo, uma das minhas comidas favoritas, animadamente e sem pesar, alguém diz que estou claramente com "compulsão alimentar". Seria um comentário ignorável se não fosse meu histórico. Eu estava, finalmente, liberta das amarras que seguravam minha boca e meu estômago, até que senti as correntes voltarem. E eu nunca mais comi torresmo.
— Ila Nazareth

Senti como se fosse alguém escrevendo sobre um trauma meu. Sinto muito que compartilhemos essa mesma sensação. Gostei do texto, embora tenha ficado um pouco perdido.
Seu texto é muito identificável e verdadeiro. Conseguiu retratar muito bem.
Já passei por uma situação semelhante e me senti extremamente acolhida pelo seu texto. Além disso, o vocabulário foi bem explorado, usando palavras diferentes mas com significados semelhantes para evitar repetição. O texto muito bem estruturado
Infelizmente eu me identifiquei muito com o texto. É complicado como algo tão necessário pra nossa vida pode se tornar nosso inimigo. Parabéns pela escrita!