A ausência que ecoa
- Manuella
- 28 de ago. de 2025
- 1 min de leitura
Às vezes, me pergunto se a ausência tem som. Sempre tive dificuldade em estar sozinha. O
silêncio me incomoda, como se escancarasse uma ausência antiga. A falta da minha mãe
foi um espaço vazio que eu nunca soube preencher. Não foi uma rejeição explícita; não
houve um "não" direto. Mas a ausência dela deixou em mim a marca da rejeição. Cresci
com a sensação de que não era suficiente, como se houvesse algo errado comigo para
justificar aquela distância.
No Dia das Mães da escola, eu temia as perguntas: "Sua mãe não vem?". Eu ficava
tentando disfarçar a dor. Aquela com quem se conversa sobre a vida, com quem se
compartilha dúvidas e descobertas, quase nunca esteve nesse lugar que deveria ocupar na
minha vida.
Com o tempo, aprendi a buscar companhia para escapar desse vazio. Não é só receio de
ficar sozinha, mas receio do que a solidão me faz lembrar: a rejeição, o abandono, a
ausência.
Nas minhas relações, eu cuido, acolho e faço o possível para que o outro não sinta o que
eu senti. Através da terapia, percebi que tento curar os outros para não olhar para as
minhas próprias feridas.
Hoje, eu e minha mãe conversamos, mas o espaço que ficou não se preenche tão
facilmente. É como se houvesse uma lacuna que, mesmo com palavras e encontros, ainda
resiste. Tento aprender a conviver com esse vazio e a aceitar que talvez nunca desapareça.
Mas confesso: às vezes continuo me sentindo perdida, como aquela menina que, no fundo,
só queria ser vista.
Aurora Lispector

Lindo texto! Me identifiquei na parte de sempre tentar acolher as pessoas para elas se sentirem bem também.