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A capacidade da perspectiva

  • Manuella
  • 29 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Aquele momento paralisante em que se percebe que nada será como antes, que existe uma história anterior ao acontecido e existirá um "infito" posterior, a aflição da negação instrínseca e a dificuldade de entender que aquilo é real, traumas simbolizam na minha visão e na até então experiência que tive com eles um marco, em que sua reação para com eles determinará seus reais efeitos em sua vida, mas esse "poder" só se ganha com o tempo. 

O primeiro contato que tive com o falecimento de um ente querido me ocorreu bem nova, apenas com 7 anos de idade o pensamento de que nunca mais veria aquela pessoa era algo tão novo em minha mente que além de não parecer possível os outros pensamentos que desencadearam desse fato eram cada vez mais dolorosos, pensei primeiro no abraço, no toque que nunca mais sentiria e naquele exato momento trocaria tudo por isso, depois veio a visão do rosto com vida sorrindo que temia esquecer, a voz ao telefone, as memórias que só poderia revisitar e reviver em minha mente, a dor que aumentava se tornando acumulativa e sem fim. Eu só queria poder acordar, saber que era um pesadelo e ter aquela sensação de alívio, mas não era porque era real e lidar com essa realidade doía, o choro é inevitável e com o tempo, se você acredita, só espera ter qualquer resposta daquela alma nos sonhos, algum sinal durante a rotina e só depois de muito tempo você começa a olhar a situação com outro tipo de perspectiva.

Entender que é a única certeza que temos nos faz valorizar a sorte de termos tido tempo com aquele ente querido, a saudade muda de dor a felicidade em alguns momentos, você se pega lembrando de memórias engraçadas com um riso ou então está em uma situação que te remete ao que aquela pessoa faria, diria e você reinventa o sentimento de dor, ele não deixa de coexistir com a felicidade que a pessoa causou em sua vida, mas deixa de ser o único sentimento presente ao se lembrar.

O segundo contato que tive com a noticia de óbito na família foi diferente, talvez por estar mais madura já com meus 16 anos, por ter sido uma pessoa mais próxima (a avó que me criou) ou mesmo um conjunto de todos esses e outros fatores. A dor foi imensurável como sempre é, a certeza de que isso não poderia acontecer porque eu não enxergava um mundo sem ela era palpável, na realidade, eu não me enxergava em um mundo em que ela não estivesse presente. O luto é um sentimento constante e acredito ter esse nome por representar uma real luta física e mental que se vive, mesmo que saiba que em algum momento irá acontecer nunca estamos ou estaremos preparados, o surpreendimento e o vazio que nunca mais será preenchido porque todos somos únicos é permanente. A tristeza e a dor prevalecem mas o amor também, aquele que é inextinguível, eterno e puro.

A transferência da lembrança com sofrimento e negação para a lembrança com alegria e aceitação foi muito mais gradual e sutil nesse processo, mesmo que após tanto tempo eu consiga ver a situação como uma oportunidade de aprendizado e de resiliência no qual o tempo que tive com ela era o máximo que poderia ter tido e por isso sou grata, é um trabalho constante. Porém, uma coisa importante que o tempo me fez perceber e viver essa ideia foi quando notei que realmente não existirá um mundo em que precise viver sem ela, já que é cada vez mais nítido sua presença em todas as coisas se eu me propuser a ter um olhar mais atento, porque ela vive em mim, ela vive quando consigo entender uma matéria porque era a primeira que recorria para explicar, quando me formei sei que ela estava lá porque sempre esteve presente em todas as minhas conquistas, quando pratico esportes já que era quem me levava, observava e aplaudia orgulhosa toda e qualquer vitória, quando como um bolinho de chuva e rio porque ninguém saberá fazer um tão bom quanto o que ela fazia, quando honro e ajudo minha mãe pois sei que era seu maior desejo e orgulho. 

O poder que mencionei no inicio do texto é esse de ressignificar tudo que a pessoa foi para que ela continue sendo, realizar todas essas ações mostra que sua existência ainda muda o presente em que vivo, continuar seguindo seus conselhos mesmo depois de ela não estar mais nesse mundo fisicamente a mantém viva em minha vida. Essa mudança de perspectiva é sem dúvida um processo permanente até porque todos temos nossos momentos nos quais a dor prevalece, mas buscar essa virada de chave foi a melhor maneira que encontrei até hoje de passar por esse processo e não tenho dúvidas de que é a maneira como todos os que já partiram e nos amaram querem que nós os lembremos.


Verônicafundo


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1 comentário


morschmagnolia
08 de set. de 2025

Texto bem desenvolvido e com uma linda reflexão. Sinto muito pela a sua perda!

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