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A CASINHA DE BONECAS

  • Submarino
  • 20 de mar.
  • 2 min de leitura

Ali, enquanto esperava no sofá da patroa da minha mãe, eu só pensava em uma coisa: a casa de bonecas posicionada exatamente e diretamente do outro lado da sala, voltada para mim. Era rosa, com vários andares, todos mobiliados com pequenos móveis coloridos que, junto às bonecas, forjavam um cenário tão hipnótico que eu nem percebia minha mãe passando de um lado para o outro com um pano de chão ou aspirador de pó. Em algum momento, porém, eu saía do transe, lembrava que aquela não era a nossa casa e, o mais importante, lembrava da voz da minha mãe proibindo-me de sair daquele sofá, pois eu tinha que, mesmo presente, ficar invisível, já que ela dizia que a patroa não gostava de bagunça. Assim, eu ficava, mais uma tarde após a escola, encarando aquela casinha de bonecas e imaginando, de longe, as bonecas se movendo, conversando, trocando de vestido e saindo com seus namorados.


Contudo, o cenário romântico termina quando a filha da família passa a estudar no mesmo turno que eu. Agora, sentada naquela sala, eu só pensava em duas coisas: a casa de bonecas posicionada em minha frente e a menina loira que brincava com ela enquanto encenava vozes, a proprietária. Nessa altura da agonia pelo brinquedo, tomei coragem para abandonar o combinado de quietude e ir até a menina do outro lado da sala. Foi então que passei, em versão prematura, por uma introdução ao que mais tarde eu chamaria de egoísmo; ela me disse que a casinha era dela e que preferia continuar brincando sozinha. Pela primeira vez, senti raiva, vontade de empurrar aquela menina e brincar como minha mente idealizava; afinal, no auge da minha infantil ira, eu não queria apenas brincar de bonecas, agora queria aquela casinha para mim. Entretanto, não foi o que fiz, pelo mais puro medo de apanhar da minha mãe, algo que não é o melhor motivo para não atentar contra a vida da filha da patroa dela.

Naquele dia, voltei para nossa casa resmungando, protestando contra aquela menina loira e discursando para minha mãe sobre toda aquela revolta absoluta. Implorava que deixaria meu quarto arrumado por toda a eternidade e lavaria todas as louças do mundo se eu ganhasse a bendita casinha de bonecas. Súplicas que nada adiantaram, pois minha mãe não tinha a mínima condição de comprar um brinquedo daquele, custando centenas de reais. Mais uma explicação sem sucesso e incompreendida dentro dos meus pensamentos de criança convicta. A desolação era tamanha que me "atiçou as lombrigas", como dizia minha mãe, causando-me febre durante dois dias após o acontecimento. Infelizmente, tal sinal não foi o suficiente para o fim do meu ingênuo drama pessoal, pois me lembro bem de todas as vezes que voltava naquela casa e via a casinha lá, rosa, alta e piscando para mim. E quanto a minha condição? Inerte. Sempre invisível, sempre imóvel.


— Submarino

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5 comentários


Hermes
Hermes
24 de mar.

Esse é um retrato dolorosamente sensível da infância atravessada por desigualdades. Impossível não se afetar.

A forma como o desejo e a frustração são narrados no seu texto é potente e muito humana. Forte, delicado e necessário.

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T. Davison
T. Davison
22 de mar.

Que escrita envolvente. Meus parabéns

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Ýsis Devereaux
Ýsis Devereaux
21 de mar.

Sua forma de escrever é inebriante. Mergulhei na história sem nem mesmo perceber, até eu mesma quero a casa de bonecas agora

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aga.fullgas
21 de mar.

Gostei bastante de sua maneira de escrever. Texto que prende sua atenção ‘pra valer’.

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Joan Of Arc
Joan Of Arc
21 de mar.

Muito pesado, e muito profundo também, uma história que dá tristeza só de ler. A forma como escreveu é perfeita, e faz até o leitor sair pesado dessa realidade tão dura. Amei demais.

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