A pegada que vai me marcar para sempre
- Manuella
- 29 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
“I’ll bite the hand that feeds me”—Bite the hand, Boygenius
Em um lugar não muito distante daqui, no dia 09 de janeiro de 1997, uma garotinha de 8
anos teve o melhor dia da sua vida. Ela visitou, junto com a mãe, o jardim zoológico em um
encantador passeio escolar. A pequena ficou fascinada com os ursos, e a mãe, com os
macacos. O melhor dia de todos. Ponto.
No dia seguinte, a criança vivenciou o pior dia da sua vida. Após chegar da escola, a menor ouviu um grito. Estava sozinha com a mãe, e se deparou com ela se contorcendo no chão,
deitada, convulsionando com as mãos na cabeça. Havia tanto que poderia ter sido feito,
como ligar para a emergência ou tentar buscar ajuda fora de casa. Mas ela era só uma
criança, que chorou e gritou com a situação. Um tempo depois, a mãe se inquietou. A
pequena imaginou que aquele sofrimento afligindo sua genitora havia passado, e apenas
esperou pacientemente o pai voltar do trabalho. O pai chegou e tentou reanimar sua
esposa, mas ela já estava morta naquele momento. Ele só conseguia dizer a menina
“Porque você não ligou para a emergência?” O pior dia de todos. Ponto.
A garotinha era Alaska Young, protagonista do livro de John Green, “Quem é você,
Alaska?”, e a morte da mãe, ligada ao fato de não ter feito algo para salvá-la criou um abalo
psicológico nela que perseguirá seus passos e rastreará seu espírito até o fim de sua vida.
Criou nela um trauma.
Alaska, como uma forma de compensar a não atitude ao se deparar com o aneurisma da
mãe, se tornou uma adolescente impulsiva. Ela deseja tudo e faz tudo, para se arrepender
do que foi feito ao invés do que não foi feito. Isso é somente um exemplo do que o trauma
fez com ela, e faz com todos nós. Ele nos molda, nos difere, nos transforma, nos
condiciona. Para sempre. Eu passei por algo parecido. Honestamente, não me recordo
dessa história por completo, além do certo pavor que ainda me toca no momento em que
escrevo isso. No entanto, tentarei ser o mais fiel possível nesse relato.
Quando eu tinha por volta dos meus 10 anos, fui andar no centro da cidade com a minha
mãe. Não era uma cidade grande nem pequena; logo, o centro e a avenida principal eram
os melhores passeios para se animar após um longo e cansativo dia de aula. Era uma tarde
calorenta, e enquanto andávamos, nos deparamos com um cachorro de rua. Ele era de
grande porte, salvo engano, e não creio que tivemos quaisquer interação profunda com ele;
apenas continuamos o nosso caminho. A partir disso, ele começou a nos seguir para todos
os lugares que íamos. Nós corríamos e ele ia junto, e mesmo quando pensávamos que
havíamos o despistado, ele aparecia alguns momentos seguintes. Depois de algum tempo
nessa “perseguição”, me lembro de que uma funcionária de uma loja que passamos notou o
nosso visível desespero e segurou o cão enquanto nós atravessávamos a rua, e nunca
mais o vimos.
Durante o tempo em que isso acontecia, eu me lembro de estar aterrorizada. Sentia muito
medo do que ele poderia fazer, do fato de que ele sabia onde estávamos e seguia nos
procurando. Eu nunca fui uma exímia fã de animais, e após esse caso, isso somente piorou.
Desenvolvi, sucessivamente, um trauma aos animais (principalmente cachorros, e
principalmente de rua) e da chance de estar sendo perseguida.
Até os dias atuais, ver alguns animais me gera enorme pavor. Ao contrário de Alaska, a
mera possibilidade de adentrar um zoológico invade os mais escondidos sentimentos
dolorosos por trás do meu sistema nervoso. Por mais inofensivas que algumas espécies
sejam, tento manter o menor tipo de contato (visual ou por toque físico) possível. De vez em
quando, me deparo com vídeos de alguns animais nas minhas redes sociais, e meu
coração acelera quando estão muito perto da câmera; quando parece, em um vago
vislumbre, que vão conseguir me alcançar. Além disso, o pensamento de que posso estar
sendo perseguida trouxe também outro nível de preocupação a mim. Não somente de
animais, mas de pessoas como um tudo. Em ruas vazias, em locais mal iluminados, em
noites silenciosas, em calçadas pouco iluminadas. Há o medo constante pairando no meu
corpo.
Não acho que é possível se curar de um trauma. Independente da intensidade, da
gravidade ou do acontecimento, a união do termo a todos os indivíduos é pelo fato de um
evento traumático permanecer encravado nos nossos ossos até nosso último respiro. É
seguir, mesmo que não em lembrança, no nosso inconsciente mais profundo, nos
assombrando e nos aterrorizando em cada escolha que tomamos. No entanto, imagino que
é possível, em algum grau, trazer mais paz à alma. De que a memória dolorosa apareça
menos, e menos, e menos, e por mais que ainda permaneça viva, não siga permeando o
sofrimento do ser humano.
Ainda tenho medo de cachorros. Sem nem notar, desvio deles nas calçadas e não brinco
com extrema facilidade, mesmo que sejam de minha confiança. No entanto, há pouco
menos de um ano, tenho um cachorro pela primeira vez na vida, e sua existência trouxe um
significado completamente oposto do que havia em mim. Há amor, alegria e fofura onde
antes havia medo, pavor e palpitação. O trauma ainda me afeta e me assusta, mas consigo
ditar como me sinto. Consigo ver o arco-íris em um dia cinza. O sol raiando em meio ao
turbilhão de nuvens.
Há marcas permanentes na minha pele, mas agora, elas são de pegadas que eu já
identifico. E são lindas.
Lois Lane

"How will we ever get out of this labyrinth of suffering?" Adoro a Alaska Young, ótima referência! Imagino como deve ter sido desesperador essa situação.