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A travessia que me atravessa

  • Manuella
  • 16 de nov. de 2025
  • 2 min de leitura

A ponte sempre me pareceu um corpo.

Um corpo estendido entre dois lugares que fingem não se tocar,

mas que, no fundo, se desejam.


Toda vez que atravesso, sinto que sou eu quem está sendo atravessada.

Pela pressa, pelo vento, pelo medo de querer demais.


Saio tarde, sem avisar.

A noite tem cheiro de segredo.

O motor da moto pulsa como se soubesse o que me espera do outro lado.

É o som da minha culpa disfarçada de coragem.


O asfalto é o espaço onde a razão e o impulso disputam o mesmo corpo.

E eu acelero, como quem confunde urgência com destino.


O vento corta meu rosto, e eu deixo.

Deixo que ele leve o pouco de juízo que ainda me sobra.

Há algo de viciante em meter o louco,

como se o corpo soubesse o caminho antes da razão.


A ponte é longa.

E, no meio dela, tudo fica suspenso:

a cidade atrás, a cidade à frente,

e esse desejo que não sabe onde termina.


Desejo talvez seja isso,

essa fome que só existe enquanto não é saciada.

O toque, o corpo, o suor

são o preço de perder o que me move.


O preço de ter o que se quer é ter o que um dia se quis.

Eu sei disso.

Mas continuo indo.


Há um prazer obsceno em esconder.

Em ser todas as que cabem em mim,

e nenhuma por inteiro.

Em deixar que me vejam inteira,

sem que percebam o que me falta.


A culpa vem depois.

Mas ela também aquece.

É o lembrete de que ainda posso errar,

de que ainda estou viva.


E quando o desejo se faz corpo,

entendo que o inconfessável não é o que faço,

mas o que permanece em mim depois.


O que me consome não é o ato.

É não poder dizer o que eu fiz.

O segredo é a pele onde o desejo mora.

E é isso que o mantém vivo.


Enquanto a cidade dorme,

eu sigo atravessando.

Entre o que quero e o que escondo,

entre a falta e o excesso,

entre o risco e o retorno.


Se há uma liberdade em mim que ecoa,

é a de poder seguir adiante

sem ter que justificar o que me move.


E, no meio da travessia, me pego pensando:

até onde vale atravessar uma ponte por algo que talvez só exista enquanto estou indo?



Aurora Lispector


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1 comentário


Cece
Cece
18 de nov. de 2025

Adorei a pergunta forte no final! Ótimo texto!

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