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Aguarde o próximo trem.

  • Agá
  • 20 de mar.
  • 2 min de leitura

Ela não me olha nos olhos. Se recusa a me olhar nos olhos e dizer que não sente muito. A brisa inquietante de uma manhã chuvosa me obriga a notar a presença insignificante do trem. A observo se levantar de um banco amarelo desbotado qualquer. Ela não me olha nos olhos, mas anseia pela chegada de alguém. O trem para na estação e nos divide em dois polos diferentes, como se fôssemos estranhos. Como se o nosso encontro não fosse algo premeditado, mas uma falha nos códigos tresloucados dessa sociedade febril que nos cerca. E seu rosto some do espelho dos meus olhos.

Como em qualquer estação idiota, o tempo não demora a passar. O trem se esvai, acompanhando a celeridade das correntes de ar. E ela reaparece. Sorridente. Um sorriso que me faz sorrir – mesmo em meio a tais circunstâncias. No entanto, graças à ironia de um destino aliado à minha má sorte, aquele sorriso – tão afetuoso, tão materno, tão suficiente – não brilhava em minha direção. Juntamente a seus traços vitimados pelo tempo, uma nova figura crescia. Um outro alguém que despertava aquele sorriso. Um alguém que não era eu.

Alguém menor. Mais novo. Mais inteligente. Mais saudável. Mais disposto. Menos preguiçoso. Menos inquieto. Menos inseguro. Menos questionador. Alguém que, só de mirar os olhos, percebi que supriria tudo aquilo que eu nunca pude suprir. E meu fim precedeu a queda. Enquanto o trem deixa a estação, eu observo a cena, divagando sobre o meu destino. Divagando sobre o conjunto de três palavras mágicas que ela nunca proferiu a mim..., mas que fugiram de sua boca tão rapidamente quando aquela figura deixou o maldito trem.

O sentimento foi de raiva. Os pensamentos de insuficiência transbordam os meus poros e de repente o vão que nos apartava tornou-se tão atrativo. E as palavras bonitas se embrulham na minha boca. Os olhos não mais acompanham o sorriso estridente. Agora acompanham as águas cristalinas ensoparem a minha roupa. Não consigo distinguir ao certo de onde vinham: se fugiam de suas nuvens ou dos vazios da minha alma. Mas o vão...tão atrativo. Confesso que quase pensei em tomar uma atitude. Em obrigá-la a se importar com minha existência e, quem sabe, futuramente, transbordá-la com o sentimento de culpa. Culpa essa que carreguei em meus ombros por tantos anos.

Uma gota, como forma de consolo, toca meus ombros. A brisa agora não é apenas um incômodo onírico, é uma realidade. Uma realidade que se aproxima para saludar a minha, realçando minha melancolia. Me aproximo do vão. Calculo a profundidade e o tempo médio de queda. Focalizo minhas lentes naquela cena. No sorriso. No “Eu te Amo”. E dou um passo à frente. Mas algo parece errado. Algo está incompleto.

Um zumbido desconhecido invade meus tímpanos, de forma gradual e copiosa. Procurando a origem de tal distração, contorno as estruturas ao meu redor. O próximo trem. O barulho incessante é apenas um próximo trem. Indicando a próxima passagem de tempo. Então, sou obrigado a retroceder em meus passos e, por consequência, em meus pensamentos. Não poderia acabar com aquilo tudo. Embora quisesse muito, ela não me olhava nos olhos. Então não valeria a pena.


— Agá

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4 comentários


Hermes
Hermes
24 de mar.

Gostei muito do seu texto. A tensão dele cresce de um jeito que prende até o final. A sensação que tive é de que ele fica ecoando depois que termina.


No mais, fico feliz que tenha retrocedido em seus passos. Espero que a vida te conforte.

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Emma
Emma
23 de mar.

Uau! Que texto incrível, a crônica é magnética, interessante e poética na medida certa. A resignação e aceitação sobre o ocorrido deixou um tom de melancolia muito bom na história, adorei.

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Joan Of Arc
Joan Of Arc
21 de mar.

Muito profundo e muito triste. A escrita é impecável e poética, muito linda!

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Ýsis Devereaux
Ýsis Devereaux
20 de mar.

A sua escrita é maravilhosa, bem fluida, gostei bastante. Quanto ao seu recalque, sinto muito que as coisas tenham ocorrido dessa forma com você, e fico feliz pela decisão final em relação ao vão. Parabéns

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