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Alongo os Pés

  • Ýsis Devereaux
  • 20 de mar.
  • 3 min de leitura

Quando fico nervosa,cansada ou sinto que estou perdendo o foco, alongo os pés. Muitos já me perguntaram por que faço isso com frequência, mas nunca tenho uma resposta, até por que, é apenas um hábito. Um que nunca questionei de onde veio. Enquanto criança, fui prodígio no esporte. Minhas técnicas tinham certeza que eu me destacaria nesse nicho, então sempre me contavam o que eu conseguiria conquistar se me dedicasse de corpo e alma. Surgiu-se então o sonho de me tornar uma atleta de alto rendimento, para, um dia, competir nas olimpíadas. Me alongava todos os dias, principalmente os pés, já que eram os que recebiam mais impacto.

 

Até que um dia, subitamente, eu cresci. E por algum motivo, se dedicar de corpo e alma passou a não ser o suficiente, já que eu não conseguia mais alcançar o nível de perfeição que me era exigido. Magicamente, todos começaram a dizer “Você está velha demais para isso”. Entretanto, como poderia estar velha demais para algo que amo? Passei a me dedicar cada vez mais, treinava mais, estudava os movimentos. Mas me faltava uma coisa que meu estudo e dedicação nunca puderam comprar: talento. A partir desse momento, o esporte não era mais meu amor, era minha cobrança, uma preocupação de ser ou não ser o suficiente. Ao longo do tempo comecei a ficar ansiosa e preocupada. Meu sonho se distanciava de mim e a realidade, de que eu provavelmente nunca o alcançaria, me atingia.

 

Esse sentimento me levou a procurar por algo que pudesse me acalmar nas competições. Desde então, antes de competir, comecei a alongar os pés. Não apenas por nervosismo de não atingir a nota necessária, mas também ajudava a organizar os pensamentos. Em algum momento, aceitei que meu sonho esportivo nunca iria se concretizar. Realizei uma última competição estadual como despedida, ganhei aquela competição. Me lembro de ser uma das melhores sensações da minha vida, pois naquele dia, decidi pensar apenas na paixão que tinha pelo esporte , e não com o medo de dar errado. O tempo passou, encontrei novas paixões, e pensei ter deixado meu sonho não realizado de lado, que havia o esquecido por completo.

 

Isso, pelo menos, era o que eu acreditava. Dois anos depois, fui à uma competição de uma conhecida que praticava o mesmo esporte que um dia pratiquei. Enquanto estava na arquibancada, percebi que antes de iniciar a competição, ela foi para um cantinho e fez algo que conheço bem: alongou os pés. Mas não era qualquer alongamento, era exatamente o mesmo que eu fazia. Depois a perguntei por que ela fazia aquilo, e ela me contou: a ajudava a se distrair da pressão de que talvez não atingisse seus objetivos, ajudava a focar a mente numa coisa só.

 

Naquele dia, percebi que meu motivo por trás do meu constante alongamento. Além de ser uma fórmula que usava para me acalmar, era também uma sequela de um sonho nunca alcançado. Aquele alongamento não representava apenas a tentativa de retornar ao foco, mas um sonho que desloquei do meu consciente para o inconsciente, achando que havia o superado e esquecido essa frustração. Hoje em dia, ainda alongo os pés, mas só de vez em quando. E aprecio esse hábito. Apesar de ter surgido de algo negativo, mostra, de certa forma, o quão forte sonhei. Espero usar a determinação que tive para tentar alcançá-lo em algo a mais proativo ao longo da vida. Pois, apesar de trazer dores de cabeça, sonhos ainda são lindos.


Ýsis Devereaux

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3 comentários


Hermes
Hermes
24 de mar.

Seu texto possui alguns equívocos do ponto de vista gramatical, mas nada que dificulte a comunicação. Aliás, a mensagem foi clara e emocionante. Obrigado por compartilhá-la conosco.


O momento em que você questiona "como poderia estar velha demais para algo que amo?" foi, para mim, um dos mais tocantes do seu texto. Acredito que essa reflexão seja algo que uma grande parcela de nós vivencia ao longo da vida.


Como você mesma disse, apesar de tudo, sonhos ainda são lindos. E espero que você sempre tenha a coragem de encontrá-los.

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aga.fullgas
21 de mar.

Muito legal os paralelos de seu texto. É de fato um espelho de todos nós.

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Joan Of Arc
Joan Of Arc
21 de mar.

Achei a história muito linda, de superação e dedicação. Espero do fundo do meu coração que vc continue sonhando, se dedicando e sendo feliz aonde tenha chegado.

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