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Bichinho de Banheiro

  • Agá
  • 27 de mar.
  • 2 min de leitura

A água quente escorre pelos meus ombros. Quente o suficiente para me fazer sentir o pavor novamente. É a primeira vez em seis dias que tenho forças para lavar meus cabelos. Na janela, está o pôr do sol, me encarando como se tudo isso fosse dramático demais. E talvez seja. Mas não importa.


A radiação do Sol é quente. Tão quente quanto a água – que agora toca as pontas dos meus dedos. Dedos que dedilham os traços marcados pelo Sol. Sol quente. E que esboça um pequeno fecho de luz em volta de um daqueles bichinhos de banheiro. Ele me observa; tenho absoluta certeza disso. E eu o observo, tendo a absoluta certeza de que a nossa certeza é a mesma.


Me questiono há tempos se ele é sempre o mesmo. Se é fã de Raul Seixas e gosta de demonstrar metamorfose. Ou se são apenas familiares muito parecidos. E, embora demasiado cético, ainda caio nas bobagens do cotidiano. Eu sinto que ele é o mesmo. O mesmo que me viu chorar copiosamente enquanto repetia aquelas palavras horríveis.


O mesmo que voava tranquilo enquanto você reclamava das coisas idiotas que eu fazia. O mesmo que rodeava nossas conversas ácidas e sem objetivo. O mesmo que ouviu os xingamentos e as desqualificações que você direcionou a mim bem ali, na porta daquele mesmo banheiro.


E agora ele me encara. Talvez me julgando por ser tão imaturo. Por não saber lidar com um sentimento não correspondido. Por não entender que o amor familiar não deve ser sempre assim: explícito e tradicional. Ou simplesmente por me achar ingênuo demais. Às vezes ele já sabia que todo aquele drama seria em vão. Que a água quente não arderia tanto quanto os cortes, mas não passaria tão impune quanto o nada.


Ele não me responde. Permanece estático. Possui um equilíbrio tão robusto que me faz inveja. E, para piorar, como resposta rápida aos meus devaneios, ele decide voar. Sair de perto de minha cabeça pesada e vazia. Vai embora sem me dar retorno. E, com sua saída, leva meus pensamentos, deixando apenas um ínfimo conforto. Talvez fosse esse o significado de seu olhar: talvez estivesse apenas me confortando, buscando dizer que tudo aquilo não passava de um pesadelo. Que eu não era tudo aquilo que você me fez crer que era... mas não sei, não dá para ter certeza. Afinal, ele é só um bichinho de banheiro.


— Agá

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2 comentários


Joan Of Arc
Joan Of Arc
31 de mar.

Amei a forma como você usou de uma figura simples do cotidiano de todo mundo (o bichinho do banheiro) para fazer um texto tão profundo e marcante. Maravilhoso, muito bem escrito

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sabiá romã
sabiá romã
28 de mar.

Simplesmente incrível a maneira como você baseou a história em algo tão corriqueiro como um bichinho de chuveiro, ótimo texto!

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