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Charlatã

  • Emma
  • 20 de mar.
  • 2 min de leitura

Eu charlateio

Tú charlateias

Ele charlateia

Nós charlateamos

Vós charlatais

Eles charlateiam


Dentre os esparsos primeiros dias de aula, um em específico me marcou para a vida inteira. Sabe o engraçado? Eu nem ao menos me recordo dele! Mas de alguma forma ele mudou o curso de como eu agiria a partir de então. Acordei, e posso supor apenas o que comi de café da manhã. Dentre a opções temos: misto quente, cream cracker com manteiga ou pão de forma com manteiga. Todas essas opções acompanhadas por uma boa dose de Nescau, claro! Após a refeição fui fazer criancices, assisti Cartoon Network, Discovery Channel ou Disney Channel e talvez tenha brincado no meu quintal, não sei.


Ao chegar no fim da manhã, começa-se a ansiosa preparação para o primeiro dia de aula após tanto tempo sem retornar ao ambiente escolar. Tomei meu banho, fiz meu rabo de cavalo clássico e almocei. O que? Não sei! Chegando na escola reencontro minhas poucas amigas e vejo uma figura se destacar na multidão: uma aluna nova! Apesar da solidão que me perseguia de certa forma, sempre adorei conversar com as pessoas, e queria que ela fosse minha nova amiguinha. Portanto, corajosamente fui falar com ela. Amizades infantis surgem de uma forma tão genuína e fácil que após uma curta conversa conseguir fundar uma amizade bastante sólida. Analisando-a, percebi sua inteligência e esforço, enquanto eu por outro lado, nem me importava direito com a escola. Tirava notas medianas, apenas o suficiente para passar. Os professores a elogiavam tanto, eu queria ser como ela e devia, segundo a minha cabeça. A partir dessa percepção a minha existência se tornou um eterno looping de comparações com colegas próximos, com todos eles, desde que eu considerasse os mesmos mais inteligentes do que eu. Minha persona projetava uma espécie de idealização no qual aquele indivíduo, e amigo, sempre seria o mais inteligente, o mais dedicado e eu era só uma fracassada que falhava em ser boa o suficiente.


O último ano escolar foi o pior de todos! Todos pareciam se esforçar mais que eu, todos pareciam mais preparados que eu, todos pareciam que iam passar na faculdade, menos eu. Até que uma surpresa agradável aconteceu! Eu fui sim aprovada na faculdade. Enquanto certos amigos que eu idealizava não. Não diria que esse fato curou minha necessidade patológica de comparação afinal, meu cérebro sempre busca novos alvos.


A Clarice Lispector disse muito sabiamente em uma de suas obras, Um Sopro de Vida, a seguinte frase: “Sou fraca, dúbia, há uma charlatã dentro de mim embora eu fale a verdade”. As palavras da autora nessa obra ressoam na minha alma porque me definem perfeitamente. Tudo que eu falo eu trato como verdade, mas sou facilmente convencida do contrário. Ao mesmo tempo, sinto que nada que eu digo – especialmente sobre mim – seja verdadeiro. É como se eu estivesse vivendo numa realidade delirante e alternativa criada por mim mesma, nada parece ter um tom verídico. Espero um dia deixar de ser uma “charlatã” e um dia eu consiga assumir o verdadeiro eu. Sem comparações excessivas ou comportamentos obsessivos, seria somente eu mesma e mais livre.


— Emma

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4 comentários


Ýsis Devereaux
Ýsis Devereaux
21 de mar.

Espero que ao ver essa informação vindo de outras pessoas você perceba que é verdade: foi um ótimo texto. Amo esse livro da Clarice, já li milhares de vezes e compreendi fortemente tudo que você expressou ao longo do texto. Muito bem escrito e desenvolvido

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aga.fullgas
21 de mar.

Clarisse é Clarisse. Muito bom uso da intertextualidade.

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Joan Of Arc
Joan Of Arc
21 de mar.

Também me sinto desse jeito, e ler esse texto foi quase ver a minha própria vulnerabilidade. Gostei da escrita e de como se expressa verdadeiramente, espero que consiga enxergar seu próprio talento dessa vez!

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Ro Mário Marra
Ro Mário Marra
20 de mar.

O teor melancólico é bem interessante, só identifiquei erros de pontuação. Faltaram algumas vírgulas aqui e ali. Fora isso, gostei bastante.

Ro Mario Marra

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