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Chá da Tarde

  • Coraline Rissi
  • 20 de mar.
  • 3 min de leitura

Leandra chegou atrasada ao nosso encontro habitual de sexta na cafeteria. Veio sorrindo, afobada, e sentou-se rapidamente na cadeira à minha frente. Pediu um café ao garçom, enquanto eu já estava com o meu chá de camomila. Vejo que ela fala, animada, mas não consigo compreender o que diz. Ela sorri enquanto fala, e seus olhos se espremem um pouco. Acho bonito quem sorri com os olhos. Eu queria sorrir mais com os olhos.


Quando eu era criança, gostava de reparar nos olhos das pessoas. Uns maiores, outros menores; olhares doces, atentos e até lunáticos. Os olhos mais marcantes para mim eram os de Giulia, minha amiga do quarto ano. Ela era impulsiva, quase feroz, e o mais impressionante era que conseguia tudo o que queria. Roubava brinquedos das outras crianças, tentava fugir da escola e levava o celular escondido dos pais.


Ela era o meu oposto. Eu tinha pavor de sequer ser chamada a atenção. Não lembro de Giulia sofrendo consequências pelos seus atos. Sempre foi inteligente, sabia até onde podia ir. Não sei por que andava com ela, ou por que ela andava comigo, não éramos melhores amigas, mas sempre brincávamos no recreio e ficávamos conversando na hora da saída.


Talvez fosse porque eu dividia o meu lanche com ela. Talvez porque ela tinha os melhores brinquedos. Mas acho que era mais do que isso. Giulia era intensa, e eu gostava de sentir um pouco da emoção que ela trazia ao contar tudo o que fazia. Pensando bem, não acho que ela era um gênio aos nove anos. Acho só que ninguém à volta dela realmente se importava.


Aos nove anos, o meu maior sonho era ter uma Barbie articulada. Na quinta-feira era o dia de levar brinquedo, e as meninas sempre brincavam de casinha. Eu ficava fascinada vendo as bonecas se sentarem nas cadeiras de plástico e dobrarem os braços para tomar chá, enquanto as minhas eram duras, algumas com cortes de cabelo horríveis que eu mesma inventava.


Giulia percebia o quanto eu ficava encantada, mas como nenhuma de nós duas tinha uma boneca daquelas, acabávamos brincando de outras coisas.


Até que, em um desses dias, ela disse que tinha um presente para mim.


Me entregou um objeto enrolado em uma folha de caderno, fechado com um adesivo da Moranguinho. Quando abri, vi uma Barbie articulada, com um vestido rosa. Giulia disse que tinha ganhado duas dos pais, mas que não ligava muito para bonecas e queria me dar uma, porque sabia o quanto eu gostava.


Não aceitei de imediato. Meus pais sempre me ensinaram a recusar presentes que eu não precisava. E eu realmente não precisava daquela boneca. Eu já tinha várias. Mas nenhuma como aquela.


Mesmo assim, como quase sempre acontecia, Giulia conseguiu o que queria.


Fiquei com a boneca.


Naquele dia, apesar de querer muito, não brinquei de casinha com as outras meninas. Fiquei com Giulia. E, mesmo ela não se importando, brincamos de boneca.


Eu estava tão feliz que queria mostrar para todo mundo. Mas Giulia pediu que eu não contasse a ninguém. Disse que os pais dela não sabiam, mas que eu não precisava me preocupar.


Na hora da saída, uma professora de outra turma perguntou se alguém tinha visto uma boneca com um vestido rosa.


Naquele instante, olhei para Giulia.


Eu nunca tinha pensado nisso antes, mas talvez tenha sido ali que algo ficou guardado em mim.

Ela teria mentido? Logo comigo? Eu, que ouvia suas histórias, dividia meu lanche, estava sempre ali.


Lembro dos olhos dela. Pela primeira vez, não estavam agitados, nem brilhando. Estavam preocupados. E acho que foi nesse momento que ela também viu, nos meus olhos, algo diferente. Decepção, talvez.


Ela sabia que eu não teria aceitado se soubesse que era roubada.


Giulia tentou me convencer a ficar com a boneca. E eu queria tanto. Por um instante, pensei em fingir que não tinha ouvido nada. Mas não seria justo com a menina que chorava ao lado da professora.


Entreguei a boneca.


Disse que tinha encontrado no pátio.


Depois disso, Giulia não falou mais comigo.


Pela primeira vez, ela não conseguiu o que queria.


Engraçado… eu nunca mais tinha pensado nisso.


Leandra continua falando. Seus olhos se apertam enquanto sorri, do mesmo jeito. Há algo nela que me lembra aquela boneca — os cabelos longos, claros, o sorriso fácil.


Percebo que ela parou de falar e me pergunta se estou bem.


Tento imitá-la. Sorrio com os olhos.


Se não a convenci, ela não demonstra. Logo volta à sua história, com a mesma expressão animada de sempre.


Coraline Rissi

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5 comentários


Emma
Emma
23 de mar.

O uso do flashback narrativo para relacionar como o evento com a Giulia te marcou ficou incrível! Crônica fantástica.

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T. Davison
T. Davison
22 de mar.

UAU!

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Ýsis Devereaux
Ýsis Devereaux
21 de mar.

O história da Giulia me prendeu tanto que quando cheguei ao final da crônica nem me lembrava do início, realmente facinante como vc conseguiu transportar a história para outro plano

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aga.fullgas
21 de mar.

Estou arrepiado. Fiquei tão imerso no relato que nem me lembrei da contextualização inicial. Muito bom.

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Joan Of Arc
Joan Of Arc
21 de mar.

Meu Deus, eu nunca iria parar de pensar nessa Giulia. Amei a escrita longa, mas nada cansativa.

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