Cuidado Frágil
- Sabiá Romã
- 27 de mar.
- 1 min de leitura
Não foi preciso que me explicassem para que eu soubesse que tinha algo de diferente nessa casa.
Por aqui tudo sempre girou em torno dela, enquanto ela estivesse bem, nós estaríamos também, mas o desmantelo era apenas uma questão de tempo e desde pequena eu tive que aprender a lidar com isso. Sempre tentei o meu melhor para não ser a causa do próximo problema que tiraria o nosso diminuto planeta de sua órbita e quando falhava na minha missão a culpa me atravessava dolorosamente, nunca achei que isso deveria ser responsabilidade de uma criança, mas também nunca quis delegar culpa a ela.
Enquanto crescia me imaginei diversas vezes chegando em casa e encontrando apenas um bilhete acompanhado de armários vazios e de um silêncio sepulcral, na maioria das situações esse pensamento me causava um medo paralisante, mas me lembro de ocasionalmente ponderar se isso não seria o melhor para todos nós e em seguida me desesperar pela crueldade de tal hipótese. Podia não ser perfeito, mas eu acreditava que era como deveria ser.
Não posso afirmar que a dinâmica do nosso meio mudou, porém a forma como me relaciono com ele se alterou o bastante para que eu consiga viver um pouco mais do que sobreviver. A angústia em relação ao abandono raramente tem me encontrado e consigo dizer que tenho estado cada vez mais livre. No entanto, sei que não importa o quanto eu tente esquecer, a garotinha que pisava em ovos para manter tudo em ordem nunca vai me deixar completamente.
— Sabiá Romã

Senti um forte peso emocional na forma como a infância é retratada no seu texto. O final é marcante ao mostrar que, mesmo com o tempo, essa experiência ainda permanece na forma como o eu-lírico se vê. Gostei muito!
Maravilhoso. Muito explicativo e aprofundado ao mesmo tempo, mesmo que seja um texto relativamente curto.