(Des)vivendo
- gabriel gonçalves
- 25 de jun. de 2025
- 2 min de leitura
Crônica por: Nora Quartz
Queria viver o presente como as outras pessoas. Ter reações espontâneas, sentimentos genuínos, pensamentos e ações não planejadas. Sinto como se me assistisse e assistisse a todos os momentos que eu deveria estar vivendo em terceira pessoa, sempre presa em um espaço além dos limites da mente e sem controlar o corpo — que responde apenas roboticamente. Assim como uma criança impotente que assiste de forma passiva à televisão sem nunca poder mudar o canal ou desligar o aparelho ou tirar os olhos dali. Observo a vida apenas escorregar pela carcaça da minha pele. Nada é absorvido, nada é internalizado.
Quando as pessoas comentam sobre memórias comigo, mesmo situações recentes, não lembro da maior parte delas. Essas memórias parecem não existir em meu corpo que não vive o presente, futuro ou passado. Posso sentir tanta nostalgia de uma época mais feliz e mais alegre, mas tampouco me lembro como era, momentos que vivi, risadas que eu ri, choros que eu chorei, tudo preso em uma imagem imaginada de um pensamento aprisionado.
Gostaria de, também, pensar menos. Avalio e esgoto todas as possibilidades de uma situação e me auto furto de qualquer surpresa do momento. E, do mesmo modo, planejo tudo que devo dizer e responder nesses cenários imaginários que, talvez, nunca aconteçam. O presente se torna apenas um objeto de pesquisa da minha loucura por confirmar qual das infinitas possibilidades encaixam. A natural espontaneidade é sobreposta pela apatia, sou preenchida por vazio, o que, no meu caso, considero mais degradante do que ser coberta por melancolias e tristezas.
Tudo isso pode parecer muito abstrato, mas é nessa sombra e nessa ausência de luz que meu verdadeiro eu fica cego pela escuridão. Meu mundo real é sobreposto por tal sombra que me impede de me ver como alguém que existe na realidade, alguém que está no presente. Muitas vezes me questiono se eu realmente existo ou se sou apenas uma sombra presa nas paredes da caverna idealizada por platão. Mas eu sei que existo, só não sinto como tal.
As vozes que a mim são direcionadas se embaralham na imensidão dos meus confusos pensamentos que também atrapalham minhas palavras e meus movimentos e minhas respostas e minhas expressões e minhas emoções. Eu sei que existo, mas me sinto presa. Presa a um limbo irreal onde a única verdade é a mentira da existência, presa a um corpo e uma mente que limitam o meu existir. Mas, se não sou eu um corpo e uma mente, se estão no controle descontroladas partes do ser que em mim habita, então, pensando bem, quem realmente sou? Talvez eu não saiba se existo.

irado
Texto muito profundo. Muito interessante como você expressa a confusão que é esse sentimento de ver a vida passar e não se sentir parte dela, me reconheci em alguns momentos de forma que nem eu imaginava. Parabéns pelo texto e por toda essa jornada, gostei muito de ler suas crônicas durante esse período.
Nora, você conseguiu trazer com clareza algo tão difícil: a confusão. Gostei muito de como você lida com isso no seu texto! 🕷️
Wow, que texto forte, carregado de emoções quase palpáveis conseguindo até me entregar um pouco de identificação.🪻
Imagino como deve ser complexo o que você sente. Você conseguiu expressar bem a confusão que se passa na sua cabeça. Espero que você consiga romper com essa autossabotagem e finalmente se encontrar.