top of page

Despedida em vida

  • Manuella
  • 28 de ago. de 2025
  • 1 min de leitura

Meu avô esqueceu de mim, do meu nome, do meu rosto, das nossas memórias e costumes por causa do Alzheimer. Mas ele me perguntava, perguntava meu nome, e eu respondia como se fosse a primeira vez que nos víamos, sempre sorrindo, aprendendo a fingir que não sinto.

Não sei por que fui a primeira. Há algo de bom nisso ou eu sou a mais esquecível? A doença não te dá motivo nem poder de escolha. Na última vez que nos vimos em vida, ele não esqueceu do meu irmão, da minha prima nem da minha tia; não esqueceu do nome, do rosto, das memórias nem dos costumes.

As nossas memórias ficaram comigo: ser levada à padaria todas as vezes que ele me buscava na escola, quando me mostrava a coleção de CDs dele e eu sempre descobria algo novo, ou quando ele trazia um pote de acerolas do quintal dele.

Hoje sinto que a morte dele me atravessou antes mesmo do velório. Consegui visitá-lo apenas uma única vez no hospital e fiquei menos de dez minutos. Uma das últimas perguntas que ele me fez foi: “Você é minha neta?”. E essa foi a que mais doeu, porque era a única coisa que eu queria que ele tivesse certeza.

O Alzheimer fez isso, uma despedida em vida, que levou embora a pessoa que amei antes mesmo do corpo partir.


Emily Dias

Posts recentes

Ver tudo
Sem título

Otávio era um garoto pequeno, por volta de uns nove anos, quando após um ano morando junto com seu pai, ele e sua mãe terminam. Seu...

 
 
 
Um aperto no peito

A ansiedade é uma reação emocional natural, uma sensação de apreensão ou receio, que funciona como um alerta para perigos e desafios....

 
 
 

Comentários


©2024 por Ufficina de Leitura e Produção Textual 

bottom of page