Dragão Vermelho
- Submarino
- 27 de mar.
- 2 min de leitura
Pouco a pouco, aquela igreja era preenchida. Preenchida por vidas jovens, sejam elas pobres ou ricas, inquietas ou silenciosas, intensas ou contidas. Vidas que buscavam, talvez, por acolhimento, respostas, salvação ou cura. Essa última foi a palavra que me chamou atenção naquele meio. “Uma noite de cura” é um título engraçado vindo daquela instituição. Entretanto, todos ali esbanjavam um olhar de entrega, o qual me trouxe, à primeira vista, medo. Sentimento que se instaurou quando a música começou; ela era leve e dava um tom de dramaticidade e divindade ao cenário. Junto daquela melodia, o homem por detrás do púlpito anunciava a chegada de saberes divinos e respostas para aqueles debruçados sobre o genuflexório.
Entre chamados e orientações do homem que “detinha a palavra”, alguns se esparramavam pelo chão desolados, outros caminhavam até o altar e, intermediados por um microfone, explanavam suas dores, seus “pecados” ou convulsionavam em meio a orações. Enquanto tal mobilização acontecia, eu permanecia sentada, em silêncio, imóvel pela vista e assustada pelo som, perguntando-me sobre os elementos que levavam todos aqueles jovens ao transe. De que forma aquela organização descobriu a sonoridade ou as palavras-chave que hipnotizariam? Eles sabiam onde tocar? Ou, então, acreditavam que a lavagem cerebral era a cura para seus fiéis desesperados? Talvez essa última palavra sintetize a resposta do porquê todos estavam tão suscetíveis, desesperados…
Não posso me colocar na posição de observador com perspectiva completamente lúcida sobre uma conjuntura, uma vez que eu só pensava em fugir dali. Fugir daquelas vozes que clamavam por socorro, fugir daquele homem que ditava palavras errôneas, fugir do sofrimento de ver tantos víveres e personalidades serem desmanchados pelo caos trazido por alguém que se dizia mensageiro, sábio, detentor da verdade. Dessa forma, o espetáculo seguiu até o cessar da música e, quando terminou, todos pareciam cansados, não libertos. Horas depois, a igreja foi se esvaziando, cada um seguindo seu rumo como se todo o caos e súplicas nunca tivessem acontecido. Mas, para mim, foi diferente. Todas as noites aquelas cenas eram revisitadas pela minha memória e meus ouvidos eram recobertos por gritos.
Desde então, tenho medo da fé.
— Submarino

Sinto muito pela sua experiência traumática. Seu texto é muito bom!