Enganos De Uma Mente Esquecida
- Ila Nazareth
- 20 de mar.
- 2 min de leitura
Um dia corrido e atarefado. Esse é o meu real desgosto da vida cotidiana. Não por ser estressante, mas pela inexplicável sensação inquietante de esquecimento que me consome até o apagar das luzes de meu recanto que banalmente chamo de quarto. É esse sentimento que me engole, me mastiga e me devora no momento. É esse dia desagradável que vivencio. E infelizmente não me encontro dentro das paredes do meu refúgio. Estou no ônibus lotado a caminho de casa, inquieta enquanto observo a imagem da cidade correr diante de meus olhos cansados.
Já em casa, me encaminho direto ao banheiro. Mas minha narina, ainda mais cansada que meus olhos, capta algo. Café achocolatado. É esse o cheiro que sinto ao adentrar o local. Meus olhos se direcionam ao frasco de perfume aberto no canto da pia. Perfume esse familiar demais para ser estranho e estranho demais para reconhecer a quem pertence. Ao sentir tal cheiro, um desconforto me assola. Nunca fui fã de cheiros fortes. E menos fã ainda de não lembrar de quem é.
Tentando ignorar o evento do banheiro, tranco a porta de casa a fim de finalmente apagar as luzes de fora e me preparar para o bendito sono. Porém é nesse exato segundo que vejo uma sombra. Parecia algúem que eu conhecia bem demais jogando sua bituca de cigarro no chão de meu quintal, cena que já vi acontecer diversas vezes. Mas não passava de um vulto, apenas algo que pensei ter visto. Porque o que a realidade não alcança, a imaginação toma conta.
A sombra não reconhecida me deixa apreensiva e uma mão em meu ombro me assusta. “Vó!?” digo espantada ao ver que a mão pertencia à minha mãe.
E é nesse momento que entendo o terrível sentimento que carreguei o dia inteiro. Entendo a peça que meu cérebro me pregou. Eu realmente estava me esquecendo de algo. Estava me esquecendo dela. Do cheiro forte de seu perfume que um dia foi reconfortante, do som de sua voz rouca, do seu sorriso sempre genuíno e das cenas que já observei tantas vezes. Um amor que estava perdido no vazio de minha triste memória. Estava me esquecendo que vovó um dia foi quem eu mais amei, quem eu mais desejei ver de novo. Mesmo que fosse impossível.
— Ila Nazareth

a questão do sentir o cheiro é uma das coisas que mais despertam gatilho, né? acho que a pior sensação é quando esquecemos o cheiro da pessoas que amamos. ótima escrita
Lindo!! Amei a narrativa, como a memória consegue nos enganar, e como você conduziu tão bem esse final. Incrível.
Ótima escrita!
É de fato encantadora a forma como você abordou esse tema. Gosto do baque causado pelo suspense prévio. Arrepiante.
Gostei do desenrolar da escrita e de como o final nos traz as respostas de que precisamos.