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Entre o desespero e o trauma

  • Manuella
  • 28 de ago. de 2025
  • 2 min de leitura

Quando se tem 17 anos e todas as amigas já têm namorado, ficante ou, no mínimo, um “conversante”, parece que o mundo inteiro está adiantado, menos você. E aí surgem as perguntas: “Como assim você nunca ficou com ninguém?” ou “Você só tá nessa situação porque quer?” Não, eu não queria.

Por que o fato de esperar a pessoa certa assusta tanto as pessoas? Era essa a minha intenção, ou pelo menos era o que eu queria acreditar. Mas no fundo eu sabia que não era só isso. Eu tinha medo: medo de não ser boa o suficiente, de não ser bonita o suficiente, de me frustrar ou de levar o temido e famoso fora. Eu já carregava um pequeno trauma de me aproximar de alguém, de me deixar gostar, e isso só aumentava meu receio.

Então eu fiz o pior: me forcei a conversar com alguém. Ele não era bonito, algo que, pra mim na época, tinha muita relevância. Não tinha cara de príncipe encantado, daqueles que eu leio nos livros da Ali Hazelwood. Mas, no final, era “alguém”. E naquele momento eu precisava disso. Precisava ter o que minhas amigas tinham.

A primeira mensagem foi um “bom dia, gatinha” que durou dois dias inteiros. Ele sumiu. Eu, ansiosa, mandei: “Oii, tá tudo bem? Mandou bom dia e sumiu kkkkk”. Ele veio com a desculpa do trabalho. Conversamos, mas sempre era eu puxando assunto, me esforçando, esperando.

Até que marcou de me ver. Meu primeiro beijo, aos 17 anos, num domingo qualquer, dentro do carro dele. Pois é, no carro dele. No fundo, eu sabia que merecia bem mais, mas o desespero faz isso. Eu estava tão nervosa que não parava de falar. Ele perguntou se era o meu primeiro beijo, não acreditou, mas acreditou o suficiente para me beijar. E eu gostei. Gostei tanto que achei que dali nascia alguma coisa. Mas o que para mim tinha importância para ele não significava nada.

Mas não nasceu. Vieram os sumiços, as promessas vazias, a atenção que nunca veio. E eu, boba, sempre esperava. No meu aniversário, acreditei que ele, pelo menos, me mandaria parabéns. Não mandou.

Naquele dia entendi: meu desespero de ser como as outras me colocou nas mãos da pessoa errada. Ele não só roubou meu primeiro beijo, deixou nele um gosto amargo de trauma. Eu, que já tinha dúvidas e inseguranças, acabei depositando minhas expectativas nele e depois as frustrei. Mas, como eu disse antes, para mim significava tudo; para ele, nada.

Talvez eu fosse imatura demais para ele. Mas, no fim das contas, não era eu quem tinha 17 com alma de 27, era ele quem tinha 27 com atitudes de 17.



Hanna Marin


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