top of page

Inventário

  • Priscila Bandeira
  • 27 de mar.
  • 1 min de leitura

Tremores. Palpitações. Um nó que me apertava a garganta, arrancava o meu fôlego. Todas

as reações eram respostas para olhares que demoravam mais do que o normal. Olhares que

procuravam no meu corpo, com interesse, o que era valioso. Mãos leves, sutis, banais.

Usadas para acariciar animais, fazer graça para crianças, cozinhar para os amados. Mãos

que não pedem licença.


Depois disso, o sereno das ruas começou a se apresentar diferente. O eco dos meus próprios

passos ficou alto demais. As chaves estavam entre os dedos por instinto, conquistando seu

lugar sem que eu sequer percebesse.


Andar à noite se tornou um problema. Não é como se a noite trouxesse perigos que à luz do

sol são inexistentes, mas na minha cabeça a noite era inimiga. A noite era sinônimo de

angústia. Estar sozinha também. Estar desatenta também.


Tudo que me forçava a estar fora da segurança de quatro paredes e um telhado virou

problema para mim.


E foi por causa de um celular.


Um celular que me foi arrancado à força. Ameaças que ainda ecoam em meus ouvidos

quando o silêncio toma conta. Um susto que ainda mora em meu peito. Um celular que quase

me custou a vida.


Dentro dele ficaram coisas pequenas demais para caber em um boletim de ocorrência:

mensagens apaixonadas de um amor há muito vivido; áudios com a risada da minha avó;

uma foto com meus pais, lágrimas nos olhos, comemorando a aprovação de um mestrado; a

lista de mercado da semana que vem.


Coube na mão de alguém. Deixou de caber na minha.


Priscila Bandeira

Posts recentes

Ver tudo
Procrastinação

Eu procrastino tudo na minha vida. Desde de tomar banho, até um trabalho importante que vale a metade da minha nota. Por muito tempo, não entendia porque isso acontecia, já que sou tão ansiosa que não

 
 
 
De novo

Tem um pequeno monstro embaixo da minha cama. Tem um monstro no meu armário.  Também tem um monstro grande esperando por mim atrás da porta. E eu aposto que tem outro no final do corredor. Eu sinto mo

 
 
 
Na próxima vez, eu...

Nem ao menos o toquei. Nem ao menos o senti. O vi se esvair pelas minhas mãos como poeira, afastando-se do pouco que um dia tivemos. Ele só precisava de um detalhe. Só um maldito detalhe. Mas, no fund

 
 
 

2 comentários


Hermes
Hermes
há um dia

Forte a forma como seu texto constrói a sensação de medo antes mesmo de revelar o acontecimento. E o final fecha bem ao mostrar que a perda vai muito além do objeto. Sinto muito por você ter passado por isso.

Curtir

Joan Of Arc
Joan Of Arc
31 de mar.

Seu texto é muito bem escrito, sinto muito pela perda que parece banal, mas que deixa um trauma profundo.

Curtir

©2024 por Ufficina de Leitura e Produção Textual 

bottom of page