Justamente no domingo
- Isabela Pelluso
- 15 de nov. de 2024
- 2 min de leitura
Era para ser só mais um dia comum. Um desses dias em que você acorda, veste o uniforme da empresa, verifica se o cabelo está no lugar, respira fundo e vai para o trabalho. Mas, no fundo, eu sabia que aquele dia seria diferente. Algo dentro de mim já havia tomado a decisão. Eu iria embora.
Estava ali, na frente do casal que me acolheu e me deu uma chance quando ninguém mais podia. Tinha apenas 10 anos. Era uma idade em que, por lei, eu não poderia sequer ter um trabalho, mas eles sabiam o que faziam e eu queria trabalhar, queria fazer algo da minha vida, e meus pais estavam de acordo.
Aqueles dois me deram uma oportunidade que parecia fora do alcance de uma menina. Com o tempo, eu cresci ali dentro e passei a me destacar. Tornei-me a terceira melhor vendedora em números , mas, de acordo com os clientes, era a mais dedicada, a mais elogiada. Passei oito anos nessa empresa, oito anos da minha curta vida. Praticamente cresci lá dentro.
Mas a decisão de sair veio como uma libertação. Quantos finais de semana foram sacrificados, quantos feriados e datas especiais eu passei ali, longe da família, longe dos momentos que fazem a vida valer a pena.
Eu sabia que precisava ir embora, mas, quando anunciei minha decisão, a reação foi dura. Meus chefes e até mesmo minha família criticaram minha escolha. Era como se sair daquele trabalho fosse uma traição, como se eu estivesse abandonando tudo o que construí. Mas eu sabia que, apesar das críticas, não havia preço que pagasse a liberdade que eu tanto desejava.
No fim, percebi que não se trata só de um salário, ou de um título de melhor vendedora. Existe algo muito mais valioso que o trabalho nunca me deu: a liberdade. A liberdade de um simples domingo em casa, sentada no sofá, com a família por perto. Naquele dia, justamente um domingo, eu finalmente senti o gosto daquilo que procurei por tanto tempo. Fechar aquele ciclo doeu, mas nada importava mais que a minha liberdade.
Januária Couto

você é incrivel!
Sua experiência e o seu relato mostram o quão forte você é.