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Memórias miseráveis de um ser miserável

  • Sissi Collins
  • 20 de mar.
  • 1 min de leitura

O cheiro de laranja com sabão me atrai de repente. Me tira do foco. Ele desfaz toda a marra de guerreira dos meus ombros como o evaporar da sujeira ao ser aspirada. E então tem os formatos e jeitos de estalar dos dedos que parecem ser a coisa mais banal de observar, mas que me tiram de foco novamente. Eles me levam do céu ao inferno e depois para o desajustado e tão cruel mundo real, trazendo a lembrança de que o cheiro e o estalar dos dedos não se ajustam ao que gostaria que se materializasse à minha frente. Como pode uma mania ou jeito de se perfumar não ser algo particular de alguém? Como essas pessoas, tão distantes e desconhecidas e sem importância podem realizar atos tão… semelhantes?

Como o meu alguém não está aqui realizando tais atos e essas pessoas estão?

A essência do dia se desdobra para os interiores do passado buscando alguma fala, alguma sequer demonstração de emoção ou um deslize idiota de minha parte que tivesse declarado e proferido as perigosas e ansiosas misturas de palavras chamadas “eu te amo.” E não, não encontro. Porque não se dá para recuperar o que nunca perdi, nunca realizei. Eu nunca proferi.

Eu nunca te disse que eu te amo. Mas você, com todas as letras, disse.

E agora, na triste miséria que são os restantes da minha memória, eu lembro e sussurro para o ar imaginando que essas três palavras, possam te alcançar.


Sissi Collins

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7 comentários


Eva Rubisco
Eva Rubisco
24 de mar.

Texto muito bem escrito e envolvente. Gostei de como a memória olfativa foi usada como ponto de partida para suas lembranças.

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Isaque Leão
Isaque Leão
24 de mar.

O texto toca ainda mais cada vez que leio, muito bom uso das palavras para gerarem sentimentos

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Hermes
Hermes
24 de mar.

Seu texto é muito bonito e sensível. A forma como memórias simples viram gatilhos é bem trabalhada, os detalhes sensoriais dão profundidade e deixam o sentimento ainda mais real. Dói de um jeito silencioso, especialmente nesse arrependimento que fica no ar. Como leitor, me envolvi a ponto de pensar que eu também não disse "eu te amo".

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Ýsis Devereaux
Ýsis Devereaux
21 de mar.

Você conseguiu deixar o seu texto com tanta emoção, que eu também fiquei mal por você não ter conseguido dizer "eu te amo"

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aga.fullgas
21 de mar.

Profundo e triste, mas profundo.

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