Memórias miseráveis de um ser miserável
- Sissi Collins
- 20 de mar.
- 1 min de leitura
O cheiro de laranja com sabão me atrai de repente. Me tira do foco. Ele desfaz toda a marra de guerreira dos meus ombros como o evaporar da sujeira ao ser aspirada. E então tem os formatos e jeitos de estalar dos dedos que parecem ser a coisa mais banal de observar, mas que me tiram de foco novamente. Eles me levam do céu ao inferno e depois para o desajustado e tão cruel mundo real, trazendo a lembrança de que o cheiro e o estalar dos dedos não se ajustam ao que gostaria que se materializasse à minha frente. Como pode uma mania ou jeito de se perfumar não ser algo particular de alguém? Como essas pessoas, tão distantes e desconhecidas e sem importância podem realizar atos tão… semelhantes?
Como o meu alguém não está aqui realizando tais atos e essas pessoas estão?
A essência do dia se desdobra para os interiores do passado buscando alguma fala, alguma sequer demonstração de emoção ou um deslize idiota de minha parte que tivesse declarado e proferido as perigosas e ansiosas misturas de palavras chamadas “eu te amo.” E não, não encontro. Porque não se dá para recuperar o que nunca perdi, nunca realizei. Eu nunca proferi.
Eu nunca te disse que eu te amo. Mas você, com todas as letras, disse.
E agora, na triste miséria que são os restantes da minha memória, eu lembro e sussurro para o ar imaginando que essas três palavras, possam te alcançar.
— Sissi Collins

Texto muito bem escrito e envolvente. Gostei de como a memória olfativa foi usada como ponto de partida para suas lembranças.
O texto toca ainda mais cada vez que leio, muito bom uso das palavras para gerarem sentimentos
Seu texto é muito bonito e sensível. A forma como memórias simples viram gatilhos é bem trabalhada, os detalhes sensoriais dão profundidade e deixam o sentimento ainda mais real. Dói de um jeito silencioso, especialmente nesse arrependimento que fica no ar. Como leitor, me envolvi a ponto de pensar que eu também não disse "eu te amo".
Você conseguiu deixar o seu texto com tanta emoção, que eu também fiquei mal por você não ter conseguido dizer "eu te amo"
Profundo e triste, mas profundo.