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O PESO DE UM CAIXÃO

  • Hermes
  • 27 de mar.
  • 2 min de leitura

Foi ali que provavelmente tudo começou, embora ninguém tivesse marcado a data.  Se continuar assim, ninguém vai conseguir carregar o seu caixão. Não foi um grito ou uma briga, mas algo dito quase com naturalidade, uma repreensão disfarçada de humor, apontando um erro que precisava ser corrigido. Ele ainda não tinha idade para compreender o tamanho de um corpo medido em braços alheios, mas entendeu o suficiente para sentir vergonha da própria figura pela primeira vez. E, assim, guardou aquela frase em um lugar onde as coisas permaneciam sem nome.

Anos depois, descobriu que havia muitas formas de não caber. Roupas permaneceram nas araras ganhando um estatuto curioso: existiam, mas não eram para ele. Fotografias pareciam sempre pedir um ângulo inexistente. Espelhos devolviam uma versão com urgência de ser rapidamente arquivada. Parecia haver uma regra anterior, invisível, definindo o que um corpo como o seu podia ou não ocupar. Era difícil de localizar, mas intuitivo de obedecer, e o corpo apenas aprendeu, por conta própria, a não ultrapassar certos limites, mesmo quando não sabia exatamente quais eram.

Hoje, ele já sabe fazer as contas. Sabe quantas camadas de roupa usar para esconder, quantos segundos consegue se olhar sem desviar, quantas vezes por dia precisa se corrigir. E sabe, também, que aquela frase nunca foi somente uma reunião de palavras. Ainda assim, toda vez que passa por um cemitério, ele desacelera. Não por respeito, mas por cálculo. Observa as pessoas, os portões, a largura dos caminhos. Imagina quantas seriam necessárias. Nunca chega a um número satisfatório. Talvez porque a conta esteja errada desde o início. Ou talvez porque certos pesos não tenham sido feitos para serem carregados — apenas repetidos, em silêncio, até parecerem naturais.


Hermes

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6 comentários


aga.fullgas
30 de mar.

Senti o texto rasgando minha pele. Muito bem escrito.

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Marilia De Dirceu
Marilia De Dirceu
29 de mar.

Ótima escrita!

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Kris
Kris
29 de mar.

Ótimo texto e linda escrita. Me senti identificado com o tema.

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Isaque Leão
Isaque Leão
28 de mar.

Escrita muito boa, extremamente poética.

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Joan Of Arc
Joan Of Arc
28 de mar.

Muito poético e muito bem escrito, admirável.

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