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O Show do Sapo

  • Manuella
  • 10 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Dificilmente me lembro dos sonhos que tive ao dormir, mas sempre sei quando um sonho se repete. No caso, apenas um que acontece e se faz presente nos piores momentos, ele nem sempre é igual, porém aluga o mesmo palco sempre, o teatro da minha formatura, as cortinas com aquele tom de vermelho, a distribuição das cadeiras, as saídas, o fundo do palco e a sala de som sobre a saída principal. É difícil descrever exatamente esse sonho, por isso, vou descrever algumas figuras que serão importantes para o entendimento dele: o Mordomo, um homem pálido e magro sem um rosto e com um cabelo castanho em corte social, ele é mais alto que eu, mas não consigo definir uma altura média para o mesmo, sempre com um smoking preto e uma gravata borboleta também preta (motivo pelo qual o apelidei como Mordomo), além de uma voz grave e com presença clara em palco, qualquer um que o visse no palco saberia reconhecer sua habilidade de atuação; o Coelho: pessoa que me introduz ao palco, utilizando uma fantasia de coelho, provavelmente uma mulher pela voz que consigo escutar no começo do sonho; o Sapo: é assim que eu sou chamado nesse sonho, tanto pela apresentação inicial quanto pelo Mordomo, diferente do Coelho, uso apenas a cabeça da fantasia do sapo, pois as roupas do resto do corpo variam de acordo com o público presente, geralmente são roupas que eu usei em algum momento importante com as pessoas que lá estão presentes.

Após essa contextualização, posso descrever de forma mais interativa o sonho, seu início é sempre o mesmo, após aplausos escuto a voz do Coelho me chamar: “para encerrar a noite de apresentações, chamo o Sapo”, da parte dos fundos até o microfone na parte central e mais a frente do palco, é silêncio, apenas os meus passos fazem a trilha sonora do caminho. E nesse momento consigo ver as pessoas sentadas nos assentos, nunca enxergo os rostos, mas isso não torna elas impossíveis de identificar, afinal já percebi familiares próximos, todos os amigos que já tive, todas as pessoas pelas quais me apaixonei, todas as pessoas que prometi nunca decepcionar. Não sei o que é a apresentação, afinal não tenho um retorno da minha voz, nunca consigo identificar se realmente estou falando algo, mas eu recebo uma resposta uníssona do público presente, risadas, cada risada que me faz ter certeza de quem está na plateia, mesmo sem saber o motivo, sinto angústia, parece que não deveriam estar rindo, mesmo sem saber, eu sinto que queria falar algo sério no palco. Talvez sem saber, eu estava pedindo risadas, implorando por atenção, só pedindo para olharem, enquanto eu me debatia desesperado, só risadas eu tinha.

Mesmo descrevendo não consigo definir a aflição, são eternidades de risadas que parecem não acabar. Ainda assim, a pior parte é o Mordomo, o alívio que ele poderia apresentar por significar que o sonho terminaria em breve não existe, caminhando no meio das risadas, cada passo dele se sobressai em relação ao público, com uma bandeja estendida para o Sapo, posso ouvir sua grave voz dizer: “a noite de apresentações foi longa, eu preciso dar ao público o que ele clama”, então eu levanto a tampa da bandeja já sabendo o que vai estar lá, uma faca de cozinha. As risadas param, transformam-se em aplausos destinados ao homem pálido, sei que aquelas pessoas não querem aquilo, mas ouvir no sonho machuca, sem conseguir me mexer, vejo o Mordomo, de maneira lenta e precisa, usar a faca para perfurar logo abaixo da minha caixa torácica, sinto o frio do metal raspar meus ossos, porém não enxergo sangue, afinal só consigo olhar para a plateia no final da apresentação.



Rick Deckard

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