Promessa
- Manuella
- 29 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Percebi. Naquele minuto, eu percebi. Estava em todos os detalhes, todos os lugares, todos os segundos daquela maldita 16h da tarde. Estava no contato que tivemos pela última vez, estava
no último olhar de amor que me lançou antes de fechá-lo para sempre, estava na segurança
que através da sua última oração tentou alcançar o coração que morreria ao te ver partir. Tento
me lembrar de quando sentei com a morte e conversei com ela pela primeira vez, mas não me
recordo se foi porque perdi um cachorrinho, um gatinho ou você. Apesar disso, eu ainda sei
dizer as palavras que naquele dia me foram lançadas e que o vento, por mais que alivie o
calor, não foi capaz de aliviar a minha dor, este não é o papel dele.
O banco era gelado e a cidade estava deserta, mas deserta dentro de mim. Tão deserta que a única voz que me foi permitida ouvir era a de quem eu mais temia. Odeio que me chame de querida, mas naquele momento, tudo o que eu odiava se tornou tão pequeno. A Morte sentou
ao meu lado e me ofereceu um ombro. Ombro? Irônico, não? Mas não era um colo, era um
aviso por meio de um gesto que eu nunca pedi. O sorriso era calmo, tranquilo e com carinho
ela disse: ‘‘Levar quem você mais ama foi o meu trabalho hoje. Um dia, alguém vai te amar
mais do que tudo e eu terei que levar você também’’. Eu não sabia que um peito podia
explodir feito uma bomba... até o meu estraçalhar ali.
Quando os nossos pés tocam a areia, as marcas ficam por alguns instantes, até alguém pisar em cima e desfazer. A diferença é que, um segundo é o suficiente para deixar sua bondade no mundo. E você deixou. Você deixou o amor, a esperança, a paciência e a honestidade. Pude
perceber que, apesar da morte estar com todos, eu tive a sorte de estar com você e não com
outro alguém. Era você quem sempre me acompanhou. Toda dança era mágica porque você
dançava, toda música era boa porque você gostava, toda palavra era bonita porque você
falava. Era você. E sempre será você. Quando eu fechar os olhos e sorrir pela última vez aqui,
eu sei que você estará me esperando feliz, mãe.
Antonella Costa

texto profundo e poético. consegui sentir o amor em cada palavra lida, parabéns!
Achei muito profundo! Adorei!
Nossa! Que texto emocionante, palavras muitos lindas, parabéns!