Quando a saudade se torna trauma
- Manuella
- 29 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Os traumas são relativos.
O que pode ser um trauma para mim, pode não ser para você.
Lembro de como os meus mudaram com o tempo...
Na minha infância, meu trauma era encontrar pessoas fantasiadas de Homem-Aranha
correndo no centro da cidade.
Hoje, isso mudou.
Mas confesso: ainda não consigo passar na mesma calçada que ele.
A vida segue, mas os traumas ficam.
Eles fazem parte da vida.
Ninguém está livre deles.
Alguns aparecem quase todos os dias, como uma lembrança irritante.
Ficamos putos só de relembrar.
Outros ficam mais escondidos, surgem uma vez ou outra.
E doem como se fossem novos.
Foi assim, em uma tarde de abril, uma semana antes do meu aniversário.
Eu estava estudando para uma prova, tentando entender aqueles textos de Sociologia e
Filosofia que nunca entravam na minha cabeça. O assunto era diferenças culturais.
Era só mais uma tarde comum, até ouvir a voz da minha mãe.
Só que ela estava diferente...
Parecia meio trêmula, quase falhando.
Minha mãe não me chamava, o que era estranho, pois sempre faz isso ao chegar em casa.
Ela chamou minha tia, que na época era nossa vizinha.
Na hora, dei um pulo em direção à sacada do quarto pra ver o que era.
Minha tia já estava do lado de fora, como se soubesse o que tinha acontecido.
Minha mãe chorava.
Naquele momento, antes mesmo de ouvir, eu já sabia... era o meu avô.
Fazia meses que meu avô não estava bem.
Ele vivia entrando e saindo de hospitais.
Nunca melhorava.
Chegou a um ponto em que mal falava.
Muito menos tinha ânimo para ver um jogo do Mengão, seu time do coração.
Os médicos diziam que não seria fácil, que ele provavelmente viveria acamado.
A primeira e única vez que visitei ele no hospital, algo dentro de mim mudou
completamente.
Freud diria que somos feitos de nossas experiências, e aquela, com certeza, me marcou
para sempre.
Um jogo do Flamengo passava na televisão e ele apertava minha mão, frágil e cansado.
Mesmo sem palavras, senti tudo o que queria falar comigo.
Aquele toque foi a nossa última conversa.
Quando percebi que realmente algo ruim tinha acontecido, perguntei, com a voz quase
engasgada, se o vovô tinha morrido.
A resposta da minha mãe foi instantânea.
Não sei se chorei primeiro ou se minhas pernas desistiram de me manter em pé.
Hoje, já não lembro muito da voz dele.
E isso me quebra por inteiro.
Sempre falamos que estamos preparados para a perda de alguém doente.
Mentira.
Nunca estamos.
Conviver com esse trauma é difícil.
Ele nos muda e nos afeta de formas impossíveis de compreender.
E deixa saudades.
Saudade, uma palavra pequena, um mero substantivo.
Mas que, na verdade, é muito mais que isso...
Ela descreve bem o sentimento complexo da melancolia e do desejo por algo que nunca
volta.
Quando a saudade se torna trauma... ela nunca vai embora.
Rádio Silêncio

Lindo texto! Com certeza nenhum jogo do flamengo é a mesma coisa do que era antes, na verdade, nada é a mesma coisa. Também passo por isso. Sinto muito pela a sua perda!
Me identifiquei com a história! Bom desenvolvimento! A catarse foi ótima