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Se eu não tiver fé, então quem terá?

  • Foto do escritor: gabriel gonçalves
    gabriel gonçalves
  • 28 de mar. de 2024
  • 2 min de leitura

Um estrondo alto ao longe, mas ao mesmo tempo tão perto, crianças gritando, minha mãe se abaixando e o chão tremendo sob meus pés. A sensação de inutilidade frente a tudo que está ao meu redor automaticamente é instaurada no meu peito. Minha mente se volta para as pessoas que vivem por aqui, mas o mundo se volta para as taxas e índices que com certeza subiram nesse momento. Não são mais nomes, são apenas números. Pessoas que estão fadadas ao conflito e rostos que enchem os editoriais de jornais por volta de todo o globo.

Quem será que foi dessa vez? Não importa, foi só mais um.

Guerra sem fim, sem destino, sem motivo, ainda que me digam que tem algum. Me faz acreditar que a Terra Santa tem mais sangue derramado do que já se viu na Bíblia. Me faz me perguntar onde enfiaram toda aquela história de “somos todos irmãos”. Me faz perder a fé no mundo e no ser que se diz ser humano.

No final, é duro dizer, mas quem faz a guerra não sofre, quem está na guerra sim. A mídia divulga a primeira informação que chega aos seus ouvidos, a comoção se espalha pelo mundo e as redes sociais se enchem de hashtags pedindo a paz. Julgam um lado, criticam o outro, protegem algum deles e se apagam frente aos povos que só choram. Minha mãe chorou esses dias. Na verdade, tem sido mais fácil contar os dias em que ela não chorou desde o início disso tudo. Foram dois no total. Tem sido difícil se manter firme, mas tem sido ainda mais difícil acreditar na bondade da humanidade. Será que isso ainda existe? Acho que se tornou mito, tem muito tempo que não vejo.

O ano vira em alguns dias, mas temo que até lá meus pés já não reconheçam mais o chão do solo em que piso nesse momento, meu coração já não reconheça mais a nação pela qual vivi e minha alma já não saiba mais o corpo que habita. Sinto que um dia esse estrondo estará ainda mais perto e a bala do fuzil de um soldado qualquer vai passar pela minha cabeça e talvez o meu nome seja a próxima manchete de um jornal no Brasil. “Guerra leva mais um civil”.

Ainda assim, me apego na esperança de dias melhores.

Em alguns dias, o ano vira, a vida recomeça, o estrondo no céu se declara como fogos de artifício e o mito tomará nome de ́guerra entre Israel e Palestina ́. Apesar de tudo, ainda acredito na humanidade.



- Rory Gilmore

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